A cadeira que pode custar outra cadeira

A política guarda ironias que só se revelam por inteiro quando já não há como desfazê-las, e uma delas ronda, neste momento, o campo governista do Sul da Bahia. Na disputa pela Assembleia Legislativa, a vitória admite plural, pois o sistema proporcional foi concebido para que várias candidaturas de um mesmo grupo cheguem juntas ao Legislativo. A corrida ao Executivo obedece a outra gramática, porque o Palácio de Ondina comporta um único ocupante, e é nessa assimetria que se esconde o risco pouco comentado do embate entre Augusto Castro, Rosemberg Pinto e, agora, Manoel Porfírio.

Convém registrar, desde logo, que o que segue é leitura de cenário, e não juízo sobre fatos já consumados. Ainda assim, os sinais desta semana autorizam a hipótese de que a controvérsia deixou de gravitar em torno do Hospital de Base e já não se resume à contabilidade das emendas parlamentares. O que parece estar em jogo, por baixo das declarações, é a primazia política de uma região inteira, e disputas dessa natureza costumam desencadear consequências que ninguém dimensiona enquanto o primeiro tiro ainda ecoa.

A eleição proporcional, por sua própria engenharia, empurra aliados uns contra os outros, já que cada voto amealhado por um candidato é voto que deixa de robustecer outro nome da mesma trincheira. Essa aritmética explica a intensidade do confronto e, até certo ponto, o legitima. Há, contudo, um dado que a pressa da campanha tende a encobrir: enquanto os postulantes à Assembleia disputam dezenas de cadeiras, a eleição majoritária oferece uma só, indivisível, sem segundo lugar que sirva de consolo.

Daí o paradoxo que a experiência política conhece de sobra. Conduzido além do razoável, o atrito interno pode converter-se em vitória de Pirro, na qual o grupo arremata a vaga proporcional e, no mesmo lance, esvazia o projeto majoritário que dependeria da coesão de todos. Ao empenhar-se em derrotar o aliado, corre-se o risco silencioso de pavimentar o caminho do adversário, e essa conta quase nunca se apresenta durante a campanha. Ela chega depois das urnas. Prefeitos que antes atendiam de pronto passam a ignorar chamadas, alianças municipais tecidas a duras penas se desfazem ao primeiro pretexto, e a confiança, uma vez rompida, revela-se patrimônio bem mais penoso de reerguer do que qualquer maioria parlamentar.

O próprio Sul da Bahia oferece, a poucos quilômetros dali, uma segunda ilustração do mesmo risco, embora por caminho oposto. Onde Itabuna sofre com a dispersão da base, Ilhéus padece do excesso contrário, o da concentração. Na capital do cacau, observa-se uma percepção recorrente nos bastidores políticos de que boa parte da estrutura vinculada ao governo estadual gravita em torno de poucas lideranças locais. Independentemente das razões que expliquem essa configuração, ela alimenta entre outros aliados do próprio campo governista a sensação de reduzido espaço de participação. Caso essa percepção se consolide, poderá limitar a capacidade de mobilização de segmentos importantes justamente no momento em que o governador precisará ampliar sua base política na região.

A lógica desse arranjo é compreensível do ponto de vista de quem concentra, porque cada nomeação estadual funciona também como instrumento de campanha proporcional. Ocorre que o que serve a um projeto de deputado pode voltar-se contra o projeto de governador. Um aliado sem cargo é um aliado sem o que oferecer à própria rede, e tende a recolher-se justamente no momento em que o governo mais precisaria de capilaridade para converter gestão em voto. A concentração que hoje fortalece uma candidatura à Assembleia pode, assim, secar amanhã a base sobre a qual se assentaria a reeleição do governador em Ilhéus.

Nada disso condena a aposta ao fracasso. É plausível que Augusto Castro saia vitorioso do lance, que Rosemberg Pinto preserve o seu território e que ambos elejam a si próprios ou aos nomes que apadrinham. Resta, porém, uma pergunta que nenhum dos protagonistas deveria menosprezar: quanto custará essa vitória? Se o desgaste abrir feridas fundas na base governista, a cadeira arrematada na Assembleia pode mostrar-se cara em excesso justamente quando chegar a hora de disputar aquela que não tolera divisão, a do Palácio de Ondina.

É neste ponto que a leitura alcança dimensão maior do que qualquer episódio isolado. Itabuna e Ilhéus, cada qual à sua maneira, expõem o mesmo ponto cego: a lógica proporcional, levada ao limite, tende a enfraquecer o projeto majoritário que deveria sustentá-la, seja fragmentando a base, seja concentrando espaços de poder a ponto de reduzir a participação de outros aliados.

Talvez essa seja a maior ironia da política. Enquanto todos acreditam disputar apenas algumas cadeiras na Assembleia Legislativa, podem estar, sem perceber, influenciando o destino da única cadeira que realmente concentra poder: a do Palácio de Ondina. As eleições proporcionais elegem deputados; as estratégias construídas durante elas, porém, podem definir a solidez política de quem disputará o governo do Estado nos anos seguintes. Se essa leitura encontrar confirmação na realidade, o Sul da Bahia poderá ser lembrado não apenas como palco de uma disputa regional, mas como o lugar onde começou a ser desenhado o futuro político da Bahia.

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