O que começou como troca de farpas entre duas lideranças do Sul da Bahia perdeu, em poucos dias, a feição de querela pessoal. Quando o vereador Manoel Porfírio saiu em defesa do prefeito Augusto Castro para rebater o deputado estadual Rosemberg Pinto, o atrito deixou de pertencer aos seus protagonistas e passou a comprometer o conjunto de forças que sustenta o governo estadual na região, naquele instante delicado em que uma divergência ainda contornável começa a ganhar contornos de fratura.
A política convive com as disputas internas como quem convive com o próprio clima: elas vêm, e nada há de anômalo em que aliados se enfrentem quando o calendário aproxima uma eleição proporcional, na qual o voto conquistado por um candidato à Assembleia é, pela mecânica do sistema, aquele que se subtrai de outro da mesma trincheira. O desvio surge mais adiante, quando a competição legítima cede lugar ao empenho de desconstruir o companheiro de chapa, e a conquista do voto se confunde com a demolição de quem deveria dividir o mesmo palanque.
Ao proclamar que Rosemberg Pinto “nunca mandou nada para Itabuna”, Augusto Castro não abriu apenas uma linha de ataque: fixou um método. A réplica de Manoel Porfírio mostra que esse método já encontra quem o reproduza entre as lideranças locais, e a experiência ensina que discursos assim, uma vez incorporados, costumam escalar antes de arrefecer. A cada entrevista concedida, a cada nota mais áspera, avoluma-se uma narrativa de divisão que dificilmente se deixa confinar aos limites de uma eleição proporcional. A oposição, convém lembrar, não precisa despender esforço algum onde a própria base se encarrega de produzir o desgaste.
Governos, ao contrário das campanhas, não se encerram no dia da apuração. Se Augusto Castro, Rosemberg Pinto, Manoel Porfírio e as demais lideranças pretendem seguir dentro do mesmo projeto estadual depois de outubro, cedo voltarão a partilhar mesas, palanques e a defesa cotidiana de uma mesma gestão diante da sociedade, e as feridas abertas no calor da disputa nem sempre cicatrizam a tempo de tornar viável essa reaproximação. Há, aqui, uma fronteira que os experientes conhecem bem: a que separa quem disputa espaço de quem incendeia as pontes por onde ainda precisará passar.
A firmeza é atributo indispensável a qualquer liderança, mas, desacompanhada de cálculo, costuma cobrar caro. O enfrentamento em excesso raras vezes fortalece um grupo; com frequência maior, apenas escancara fissuras que os adversários tratam de explorar. É provável que o governador Jerônimo Rodrigues ainda não se sinta alcançado por um embate travado, por ora, no plano municipal. Seria imprudente, contudo, supor que atritos dessa ordem permaneçam encapsulados em Itabuna, pois, quanto mais nomes ingressam na contenda, maior o risco de que o episódio seja lido, para além das divisas do município, como sintoma de descoordenação da base que ele lidera.
Há uma lição antiga que o tempo não desgastou: grandes projetos políticos raramente sucumbem à força bruta da oposição. Costumam definhar quando permitem que as rivalidades domésticas ocupem o espaço que deveria caber à construção de uma agenda comum. A cadeira da Assembleia Legislativa, encerrada a apuração, será ocupada por um único eleito de cada voto depositado nas urnas, mas o desgaste semeado por uma guerra sem freios não obedece a essa aritmética e acaba repartido por todos.
O fogo amigo carrega essa traição peculiar. Deflagrado para consumir o adversário mais próximo, ignora as divisas que se lhe pretendem impor e, quando ninguém o contém a tempo, termina lambendo as paredes da própria casa.


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