Há um fenômeno que se naturalizou na vida pública brasileira: o adversário passou a ser tratado como inimigo. A disputa que deveria girar em torno de projetos e de prioridades de gestão virou guerra de identidades, em que qualquer gesto de civilidade é lido como fraqueza, quando não como traição. Foi nesse ambiente que a solidariedade do governador Jerônimo Rodrigues a ACM Neto, depois do susto vivido na aeronave do ex-prefeito, ganhou repercussão muito maior do que a de uma simples nota.
Mais do que uma cortesia de ocasião, foi um recado endereçado ao adversário e ao próprio tempo em que vivemos.
Enquanto as redes sociais vivem do conflito e da radicalização, o governador da Bahia foi na direção oposta. Ao saber do incidente, não perguntou pela filiação partidária de quem estava a bordo, não olhou pesquisa nem mediu ganho eleitoral. Reagiu como reage quem entende que a vida vale mais do que qualquer disputa pelo poder.
A manifestação foi direta. Disse que, em horas assim, as diferenças políticas ficam para depois, porque o que está em jogo é a pessoa. Agradeceu por todos estarem bem e lembrou, com a experiência de quem roda o Estado o tempo inteiro, que a rotina de viagens expõe as lideranças a riscos que não escolhem partido.
O episódio poderia ter parado aí, mas cresceu quando ACM Neto veio a público agradecer o gesto. Em poucos minutos, a Bahia viu uma cena rara na política de hoje: dois adversários se reconhecendo, antes de tudo, como seres humanos.
Vale registrar a lição. Governar não é só administrar obras, assinar decretos e ganhar eleição. Governar é também saber onde a política precisa parar. Existe um terreno em que o poder não manda: ele não manda na vida em risco, na doença, na dor, no medo de quem percebe que algo pode dar errado a milhares de metros de altura. Esse terreno pertence à condição humana, e mandato nenhum o alcança.
A repercussão veio daí. O gesto recolocou algo que anda esquecido: democracia não pede que adversários se odeiem. Funciona melhor, aliás, quando a briga cabe dentro dos limites da civilidade. Divergir faz parte do jogo. Desumanizar o outro, não.
Jerônimo e ACM seguirão em lados opostos na corrida pelo Governo da Bahia. Vão continuar discordando sobre gestão, prioridades e rumos, e está certo que seja assim. A democracia precisa da divergência. O que ela não suporta é ver a divergência se transformar em negação da dignidade do adversário.
Nos últimos anos, o país acompanhou casos seguidos em que a lógica da guerra política passou por cima de limites éticos básicos. Gente julgada não pelo que vive, mas pelo lado em que está; tragédia pessoal convertida em arma de combate. Jerônimo não foi por esse caminho. Ao estender a mão ao principal rival, mostrou que entende uma coisa simples: o poder não suspende a condição humana de quem o disputa.
Por alguns instantes, a política parou de falar de eleição, de pesquisa e de alianças, e voltou a falar de pessoas.
Num tempo em que a agressividade costuma produzir mais aplausos do que a serenidade, o governador da Bahia ofereceu um lembrete que merece ser preservado: a grandeza de um líder não se revela apenas na capacidade de enfrentar adversários, mas também na capacidade de reconhecer a humanidade que existe neles.
Numa democracia madura, a disputa pelo poder pode ser intensa, firme e até dura. O respeito à vida, porém, deve permanecer absoluto.
Foi essa a mensagem transmitida por Jerônimo Rodrigues. E talvez seja exatamente por isso que ela tenha repercutido tanto.
Porque, antes de sermos governo ou oposição, situação ou adversários, somos todos vulneráveis às mesmas contingências da existência.
A política divide posições.
A condição humana nos reúne.

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