A eleição não está entre Lula e Flávio Bolsonaro. Está entre o centro e a irrelevância. A nova Quaest não revelou apenas quem lidera a corrida presidencial. Revelou quem saiu dela. Enquanto os dois polos dividem entre si quase todo o eleitorado, o centro político brasileiro assiste, mais uma vez, à disputa acontecer sem ele.
Por Jerbson Moraes
Há um vício antigo na leitura das pesquisas eleitorais brasileiras: concentrar a atenção em quem sobe e tratar como ruído quem desaparece.
A divulgação do novo levantamento Quaest reforçou esse hábito. O país recebeu os números como mais um capítulo previsível do duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro — o presidente com 39% das intenções de voto e o senador com 29% — e a manchete cumpriu seu papel. Mas a informação mais relevante da pesquisa não está na dianteira de nenhum dos dois. Está no espaço esvaziado que se abriu atrás deles, onde durante anos se imaginou caber uma terceira via.
O dado decisivo, portanto, não é a vantagem de Lula. É a constatação de que, somados, os dois primeiros colocados concentram praticamente sete em cada dez eleitores, enquanto o restante se distribui em frações incapazes de alterar o rumo da disputa. Governadores com projeção nacional, ex-presidenciáveis, lideranças empresariais, nomes oriundos da magistratura e representantes de movimentos políticos aparecem reduzidos a percentuais que não mudam cenário algum. Mais do que uma fotografia da liderança, o levantamento documenta o encolhimento do campo que se propunha a ser a alternativa aos dois extremos.
Durante a maior parte da última década, boa parte da análise política apostou que o eleitorado, cansado do confronto, procuraria uma saída pelo meio. Falou-se em terceira via, centro democrático, candidatura moderada, frente ampla. O discurso teve audiência, mas nunca se converteu em voto. Em 2018 e novamente em 2022, as candidaturas que se apresentavam como ponte entre os dois lados naufragaram antes do segundo turno. Nada na Quaest sugere que 2026 venha a corrigir essa trajetória. Oferecido o equilíbrio, o eleitor preferiu o pertencimento.
Essa talvez seja a chave para compreender o país que a pesquisa revela: um país menos interessado em programas de governo do que em identidade política.
Lula segue competitivo apesar do desgaste natural de quem governa porque representa mais do que a própria gestão. Carrega um campo político, uma memória coletiva e um projeto de poder que sobrevivem ao desempenho administrativo do momento. Flávio Bolsonaro, por sua vez, converteu o sobrenome em patrimônio eleitoral e herdou uma base que enxerga nele a continuidade de uma causa.
A disputa deixou de medir currículos para medir lealdades. E lealdades, ao contrário de propostas, não se negociam no varejo.
Isso não significa que o quadro esteja imóvel. Nos meses anteriores, Flávio havia conseguido o que parecia improvável: aproximar-se de Lula a ponto de produzir empates técnicos em diversos levantamentos nacionais, alimentando na oposição a expectativa de uma virada. A Quaest mais recente reabre a distância e devolve ao presidente uma vantagem mais confortável.
A oscilação, contudo, não altera a natureza do jogo. O que se consolidou foi a existência de dois eleitorados estáveis — um lulista e outro bolsonarista — em torno dos quais todo o restante disputa as sobras.
Quando uma eleição se organiza em dois grandes blocos, os candidatos passam a ser avaliados menos pelo que fazem e mais pelo que simbolizam. E isso produz consequências concretas. Episódios que, em um ambiente menos polarizado, abalariam campanhas inteiras acabam gerando efeitos limitados, porque cada eleitorado interpreta os fatos pela lente que escolheu previamente.
A polarização funciona como blindagem. Protege os líderes de suas próprias crises e reduz o impacto das notícias capazes de deslocar votos indecisos, que, justamente, tornam-se cada vez mais raros.
O fenômeno tampouco se encerra no plano federal. Toda eleição presidencial fortemente polarizada irradia efeitos sobre os estados, e a Bahia oferece um exemplo claro. A manutenção da liderança de Lula reforça, quase por contágio, o campo político alinhado ao governador Jerônimo Rodrigues. Não porque o eleitor confunda as disputas, mas porque as narrativas passam a caminhar juntas e a maré que favorece o topo da chapa costuma sustentar quem vem logo abaixo.
A oposição baiana, espelhando o impasse nacional, encontra limites semelhantes.
Esse é, no fundo, o desafio que a direita terá de resolver. Se Flávio Bolsonaro for realmente o nome definitivo do campo conservador, precisará demonstrar aquilo que nenhuma pesquisa lhe atribuiu até agora: capacidade de crescer para além do bolsonarismo tradicional.
Eleições presidenciais não são vencidas apenas pela mobilização dos já convertidos. São vencidas pela conquista do eleitor independente, daquele que ainda não fechou questão com nenhum dos polos. É nesse terreno instável, mais do que nas extremidades já ocupadas, que 2026 será decidido.
A essa altura, saber quem vencerá a eleição importa menos do que compreender outra coisa, de alcance mais profundo.
Por que o maior país da América Latina, décadas depois da redemocratização, continua retornando aos mesmos dois campos sempre que chega a uma encruzilhada nacional?
Talvez a verdadeira notícia da Quaest não seja a liderança de Lula nem a competitividade de Flávio Bolsonaro. Talvez seja a evidência de que o Brasil continua procurando respostas nas margens opostas do debate público.
Ao fazê-lo, condena o centro político a uma condição paradoxal. Os analistas o desejam a cada ciclo, anunciam sua chegada, depositam nele a esperança da moderação institucional. O eleitor, porém, quando entra na cabine de votação, segue fazendo outra escolha.
O retrato mais duradouro que a pesquisa nos oferece não é o de uma eleição específica, mas o de um país que aprendeu a conviver com a polarização como quem aceita uma condição crônica — e que continua recusando, urna após urna, a moderação que diz procurar.

Faça um comentário