A eleição baiana não está sendo construída nos palanques, mas naquilo que raramente vira manchete: consistência, presença territorial e capacidade de coordenação. De um lado, um projeto que se acumula. Do outro, uma alternativa que ainda tenta se definir.
Essa é, hoje, a verdadeira linha divisória do processo eleitoral.
A arquitetura de um poder que se consolidou
O governo de Jerônimo Rodrigues ultrapassou a fase mais comum dos mandatos — a de ocupação do cargo — e ingressou em outra, mais complexa e decisiva: a da construção de um sistema político funcional.
Há densidade territorial, continuidade administrativa e uma narrativa que não depende do improviso. Isso não é trivial. É, em termos políticos, capital acumulado.
A estratégia não opera por rupturas, mas por expansão progressiva. Interiorização de investimentos, articulação com lideranças locais, presença institucional constante. Programas, convênios e obras deixam de ser apenas entregas administrativas e passam a cumprir outra função: fixar presença política onde ela tende a se reproduzir no médio prazo.
Não há vazio de comando. Há método. E método, em política, é uma forma sofisticada de poder.
O núcleo dessa engrenagem atua com precisão. Jaques Wagner articula com a memória de quem conhece o estado em profundidade. Rui Costa, após deixar a Casa Civil para disputar o Senado, reposiciona-se como vetor eleitoral de densidade própria, convertendo capital federal em força territorial. Otto Alencar sustenta a estabilidade de uma base que não fragmentou — e, em ano eleitoral, coesão é ativo estratégico.
O MDB, por sua vez, oferece um dos sinais mais relevantes do ciclo. Não apenas aderiu ao governo — permaneceu. Em política, permanência vale mais que adesão. Ao reafirmar a vice na chapa de 2026, o partido indica que não está em trânsito: está posicionado.
Geraldo Júnior encarna essa estabilidade. Não como figura protocolar, mas como elo político entre campos que, isoladamente, não alcançariam a mesma capilaridade. A decisão de mantê-lo na chapa não é apenas eleitoral — é estrutural.
Há ainda o peso silencioso das engrenagens tradicionais. Lúcio Vieira Lima, com sua capilaridade histórica, e a influência persistente de Gedel dentro da sigla compõem um ativo que, mesmo fora do centro das manchetes, continua operando no território onde eleições efetivamente se decidem.
O resultado é um campo político que não apenas resiste — se organiza, se adapta e se projeta.
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O impasse estratégico da oposição
No campo oposto, o problema central não é de visibilidade nem de recursos. É de definição.
ACM Neto permanece como liderança relevante, com reconhecimento consolidado. Mas sua estratégia — baseada na ambiguidade calculada — começa a revelar limites estruturais.
Ser múltiplo pode funcionar em cenários difusos. Mas perde eficácia quando o ambiente exige posicionamento claro.
A indefinição sobre alinhamentos nacionais, a oscilação discursiva entre correntes ideológicas distintas e a ausência de um projeto com coerência interna formam um quadro que, ao longo do tempo, deixa de ser flexibilidade e passa a ser percebido como falta de eixo.
Coalizões amplas são naturais. Coalizões sem identidade são frágeis.
A convivência de discursos que variam entre liberalismo moderado, conservadorismo e resquícios do bolsonarismo não expressa pluralidade organizada — expõe a ausência de um denominador comum.
E o eleitor, ao final, não julga intenções. Julga direção.
Episódios recentes reforçam essa fragilidade ao expor visões de política ainda ancoradas em lógicas de controle e pertencimento. Em um ambiente democrático mais exigente — sobretudo nos centros urbanos — esse tipo de sinal não é neutro. Ele produz rejeição.
Não é apenas uma disputa de nomes. É uma disputa de modelos.
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O que está realmente em jogo
A eleição de 2026 tende a ser menos uma escolha entre grupos e mais uma decisão entre estágios distintos de maturidade política.
De um lado, um projeto em execução, com presença, entrega e direção clara. De outro, uma alternativa que ainda organiza suas próprias bases antes de apresentar um caminho ao eleitor.
O eleitor baiano pode mudar. Já demonstrou isso ao longo da história. Mas raramente aposta no indefinido.
Quando o cenário se torna incerto, a tendência dominante não é o salto — é a preservação do que se mostra previsível.
E, hoje, a previsibilidade está concentrada em um único campo.
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O tempo que ainda existe — e o custo de usá-lo mal
Ainda há tempo político. Mas há também um dado incontornável: quem entra na disputa sem projeto não começa do zero — começa em desvantagem.
Construir exige tempo. Recuperar exige pressa. E campanhas conduzidas sob pressão tendem a errar mais, gastar mais e depender mais de circunstâncias.
A oposição ainda dispõe de ativos relevantes. Tem nomes competitivos. Tem público potencial. Mas precisa resolver, com urgência, uma questão anterior à eleição:
precisa definir o que é.
Sem isso, não há alternativa estruturada — há apenas a ausência dela.
Jerbson Moraes
Advogado · OAB/BA 16.599 · Ilhéus/Salvador
Colunista · Manejo Notícias · Poder & Política · Abril de 2026


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