Na política, a traição não é acidente de percurso. É condição do terreno.
Na política, você vai ser traído. Não é advertência retórica nem frase de efeito para abrir discurso. É constatação de quem já atravessou mandatos, eleições, bastidores e palanques o suficiente para distinguir o que é companheirismo do que é conveniência.
Guarde isso. Porque no dia em que acontecer — e acontecerá — você vai precisar mais de lucidez do que de indignação.
Não importa o quanto você construiu. Não importa quantas portas abriu. Não importa quantas vezes estendeu a mão quando ninguém mais estendia. Em algum momento, alguém vai sentar diante de uma planilha invisivel de custos e benefícios e concluir, com a frieza de quem analisa um balanço, que você se tornou dispensável.
Quem está começando chama isso de pessimismo.
Quem já atravessou eleições chama de realidade.
A política tem essa capacidade singular de fundir afetos e interesses sob o mesmo calor. Aproxima pessoas com a força de um projeto comum, de um adversário maior, de uma eleição que parece a última trincheira. Há discursos inflamados, abraços que parecem sinceros, juras de lealdade pronunciadas com a solenidade de quem acredita no que diz — ou pelo menos no que a ocasião exige que se diga.
Mas a política, em sua essência, é movimento. O que une hoje pode separar amanhã. E quase sempre separa.
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Hoje você é indispensável.
Amanhã, você é negociável.
O aliado que jurava lealdade descobre uma conveniência. O assessor fiel descobre uma oportunidade. O padrinho político, aquele que lhe abriu as primeiras portas, passa a calcular o custo de mantê-las abertas. E você descobre, com a precisão dolorosa de quem leva um tiro pelas costas, que o poder não cultiva memória afetiva.
A traição quase nunca vem com estardalhaço. Ela chega disfarçada de silêncio — e é no silêncio que se aprende a ouvir o que a política realmente diz.
Vem na ausência estratégica. No voto inesperado. Na foto ao lado de quem, até ontem, era adversário. No telefonema que não retorna. É nesses detalhes — nesses pequenos gestos que pedem olhos treinados — que se revela a verdadeira natureza do poder: um campo onde os afetos são transitórios e as alianças, condicionais.
Dói? Dói.
Mas política não é lugar para fragilidade prolongada. Há um tempo para sangrar e um tempo para cicatrizar. E, entre um e outro, há o tempo — que é quase sempre o mais curto — de decidir se você vai se recolher ou se vai continuar.
Você engole.
Ajusta o paletó.
Sobe no palanque.
Olha para frente.
Não porque esqueceu. Mas porque entendeu que sobreviver, na arena pública, exige uma espécie de frieza estratégica que nada tem a ver com indiferença — e tudo a ver com preservação.
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Na política, rancor é um erro tático. O ressentido perde tempo. E tempo, no poder, é o único capital que não se recupera.
Quem vive de mágoa perde articulação.
Quem perde articulação perde espaço.
E quem perde espaço vira espectador da própria história.
Com o tempo, cria-se uma espécie de couro emocional. Não é frieza; é defesa. Não é cinismo; é maturidade. Aprende-se a separar o projeto das pessoas, o objetivo das circunstâncias, o essencial do contingente.
Isso não significa normalizar a deslealdade nem transformá-la em virtude. Significa compreender o terreno em que se pisa — e pisar com olhos abertos.
A política não é feita apenas de ideais nobres. É feita de ambição, medo, cálculo e vaidade — ingredientes humanos, demasiado humanos, que nenhum discurso de posse consegue disfarçar por muito tempo. Quem entra nesse jogo acreditando exclusivamente na pureza das intenções sai ferido demais para continuar. E quem ignora a natureza do tabuleiro caminha desarmado por um campo que não perdoa ingenuidade.
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A maturidade política não está em evitar a traição.
Está em atravessá-la sem implodir.
Em 2026 — como em qualquer outro ano que carregue o peso de uma eleição — não vencerá quem nunca foi abandonado. Vencerá quem suportou o abandono e teve a lucidez de reorganizar o tabuleiro enquanto o adversário ainda celebrava a jogada.
Porque política não é sobre permanência ao seu lado.
É sobre permanência de pé.
E ficar de pé depois da ruptura é o que separa os amadores dos que de fato compreendem a gramática do poder.
No fim, a traição revela menos sobre você do que sobre quem parte. Mas a forma como você reage — o silêncio que escolhe, a postura que mantém, o passo seguinte que dá — revela exatamente quem você é.
E seguir em frente, às vezes, é o gesto mais silencioso — e mais poderoso — que um político pode fazer.
Jerbson Moraes
Advogado • OAB/BA 16.599
Ex-Presidente da Câmara Municipal de Ilhéus
Colunista — Justiça & Direito

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