Quando disputou o governo da Bahia em 2022, Jerônimo Rodrigues era uma aposta improvável. Ex-secretário de Educação sem projeção pública própria, começou a campanha como desconhecido da maioria dos eleitores, protagonizou uma virada ainda no primeiro turno e consolidou a vitória no segundo, contra ACM Neto. Quatro anos depois, o cenário é estruturalmente diverso. O governador entra no ciclo pré-eleitoral com as credenciais que lhe faltavam — visibilidade, base política e controle da agenda —, além de fatores institucionais que, historicamente, favorecem quem ocupa o Palácio de Ondina.
A questão que se coloca não é se Jerônimo é favorável à reeleição — é em que medida essa vantagem estrutural pode ser convertida em vitória efetiva diante de um adversário que, pelas pesquisas iniciais, continua competitivo.
O peso da incumbência
A ciência política é consistente ao demonstrar que a condição de incumbente confere vantagem substancial em disputas majoritárias. No Brasil, governadores que concorreram à reeleição desde 1998 obtiveram taxa de sucesso superior a 65%, segundo levantamentos sistemáticos de instituições como o CEPESP-FGV. O fenômeno não é exclusivamente brasileiro: a vantagem do incumbente é documentada em democracias de todas as latitudes, da Índia aos Estados Unidos.
As razões são tanto comunicacionais quanto operacionais. Quem governa controla a agenda pública, realiza entregas institucionais com visibilidade programável e mantém presença permanente nos municípios por meio do aparato administrativo. Diferentemente do candidato desafiante, que precisa construir narrativa a partir do zero, o incumbente parte de um patamar de reconhecimento consolidado.
No caso de Jerônimo, a transformação é notável. Em 2022, o eleitor baiano o desconhecia; hoje, para o bem ou para o mal, sabe quem é o governador. A disputa deixa de ser sobre identidade e passa a ser sobre avaliação de desempenho — terreno mais estável e, para o situacionismo, geralmente mais favorável.
A capilaridade municipal como ativo estratégico
A articulação política no interior sempre foi o nervo das eleições baianas. O estado possui 417 municípios, a maioria de pequeno porte, onde a influência de lideranças locais ainda é determinante para a formação de preferências eleitorais. O apoio declarado de mais de 350 prefeitos ao governo estadual não é mera soma aritmética: representa capilaridade territorial, estrutura de mobilização e presença institucional organizada em regiões onde partidos de oposição historicamente encontram dificuldade de penetração.
É preciso, contudo, evitar a automatização do raciocínio. Prefeitos não transferem votos mecanicamente, sobretudo em disputas estaduais, nas quais o eleitor tende a ser mais autônomo em relação a orientações locais. O que o apoio municipal oferece de concreto é infraestrutura logística e presencial nos dias de campanha, além de uma rede de comunicação informal que, em cidades pequenas, ainda funciona como veículo político eficiente. Em eleições apertadas, essa diferença pode ser decisiva.
A longevidade do ciclo petista na Bahia
O grupo político liderado pelo PT governa a Bahia desde 2007, quando Jaques Wagner assumiu o Executivo estadual e interrompeu duas décadas de carlismo. A sucessão Wagner–Rui Costa–Jerônimo configurou uma linha de continuidade administrativa que já atravessa quase duas décadas. Ciclos hegemônicos dessa duração são raros na política estadual brasileira — e só se sustentam na ausência de rupturas institucionais graves, colapso econômico ou erosão interna do grupo dirigente.
Até o momento, nenhum desses elementos disruptivos se materializou de forma irreversível. A base aliada permanece coesa em suas linhas gerais, e a oposição não logrou construir uma narrativa de esgotamento do modelo que ressoe com amplitude suficiente no eleitorado. Para o governo, a estabilidade pode ser apresentada como argumento de campanha: continuidade de programas, previsibilidade administrativa e manutenção de políticas públicas em andamento.
Há, porém, um risco implícito nessa longevidade: o desgaste natural que acompanha qualquer ciclo prolongado de poder. O eleitor pode associar permanência a acomodação, e a oposição tende a explorar esse veio com a retórica da renovação. Até aqui, o discurso renovador não encontrou eco majoritariário na Bahia, mas seria imprudente descartá-lo como variável do cenário.
Empate técnico na largada: o que os números realmente dizem
As primeiras pesquisas do ciclo eleitoral apontam empate técnico entre Jerônimo e ACM Neto. A leitura apressada tende a interpretar o dado como sinal de fragilidade do governo; a análise mais cuidadosa sugere o oposto. Iniciar a disputa tecnicamente empatado com o principal adversário representa, para o incumbente, ausência de desvantagem estrutural — condição significativamente mais favorável do que a vivida em 2022, quando Jerônimo partiu de patamares muito inferiores nas sondagens.
A literatura eleitoral mostra que incumbentes com avaliação de governo estável ou positiva tendem a crescer ao longo da campanha, beneficiados pela exposição midiática do cargo e pela possibilidade de intensificar entregas nos meses que antecedem o pleito. Se essa tendência se confirmar, o empate atual pode ser lido não como teto, mas como piso da performance governista.
A ressalva necessária é que ACM Neto não é um adversário convencional. Trata-se de um político com alto índice de conhecimento, experiência em disputas majoritárias e capacidade comprovada de construção de imagem. O empate técnico, nesse contexto, indica que a eleição será disputada de forma acirrada, exigindo do governo mais do que a mera vantagem posicional.
O fator federal: alinhamento como trunfo e como risco
O alinhamento político entre o governo estadual e o Planalto é historicamente um ativo eleitoral relevante. Parcerias institucionais, investimentos federais direcionados e obras estruturantes compõem uma narrativa de cooperação federativa que pode ser traduzida em benefícios tangíveis para o eleitor. Na Bahia, onde a presença da União em programas sociais e de infraestrutura é particularmente expressiva, esse fator tende a pesar a favor do governador alinhado.
O risco, evidentemente, é que o alinhamento funcione como faca de dois gumes. Se a avaliação do governo federal se deteriorar de forma significativa até outubro de 2026, Jerônimo pode ser arrastado por uma rejeição que não é sua. ACM Neto certamente tentará associar o governador às eventuais fragilidades do governo Lula, assim como o petismo buscará vincular Neto à oposição federal. A eleição baiana, como de costume, não será apenas estadual.
O precedente de 2022: resiliência como capital político
A virada protagonizada por Jerônimo na última eleição não deve ser subestimada como ativo psicológico e estratégico. Vencer partindo de baixo, contra um adversário favorito e sob críticas intensas, conferiu ao governador um capital de resiliência que transcende o dado eleitoral bruto. Para a base governista, o precedente reduz o impacto de eventuais oscilações negativas nas pesquisas iniciais: já se esteve atrás e, ainda assim, venceu.
Esse fator, entretanto, não pode ser tratado como garantia de replicação. Viradas eleitorais dependem de condições específicas que não se repetem necessariamente: a existência de um eleitorado indeciso disponível, erros estratégicos do adversário, e a dinâmica própria do segundo turno, que tende a polarizar e beneficiar o candidato com maior capacidade de mobilização. O que 2022 demonstra com segurança é que Jerônimo tem capacidade de crescimento em campanha — e isso, por si só, já é um dado relevante.
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Síntese: vantagem real, mas não inexorável
O conjunto dos fatores analisados coloca Jerônimo Rodrigues em posição objetivamente mais favorável do que na eleição anterior. Está no exercício do cargo, é amplamente conhecido, possui base municipal robusta, conta com continuidade política consolidada e parte tecnicamente empatado com o principal adversário. São condições que, tomadas em conjunto, configurariam favoritismo em qualquer manual de análise eleitoral.
A análise seria, contudo, incompleta se ignorasse as variáveis de risco: o desgaste natural de um ciclo político de quase duas décadas, a vulnerabilidade ao humor nacional caso o governo federal perca popularidade, e a presença de um adversário experiente que, ao contrário de 2022, já conhece as armadilhas do segundo turno. Eleições não são equações lineares, e a política baiana, em especial, tem histórico de desfechos que desafiam prognosticos.
O que se pode afirmar com razoável segurança é que Jerônimo dispõe de condições estruturais favoráveis à reeleição. Convertê-las em vitória dependerá, como sempre, da capacidade de transformar vantagem posicional em campanha efetiva — e de evitar os erros que, em política, costumam custar mais caro do que acertos rendem.

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