Paulo Magalhães e a reconfiguração do tabuleiro governista na Bahia: da herança carlista à engrenagem estratégica de 2026

Com nove mandatos e o peso simbólico da grife familiar, o deputado federal pelo PSD emerge como peça central da base aliada após a saída de Ângelo Coronel — e sua reeleição passa a integrar o cálculo político do eixo PSD–PT–Lula no estado

 A saída do senador Ângelo Coronel do campo governista na Bahia não produziu apenas um vácuo de representação majoritária dentro do PSD estadual. Deflagrou, sobretudo, uma reconfiguração interna de protagonismos que eleva o deputado federal Paulo Magalhães (PSD) à condição de principal quadro não petista na sustentação simultânea dos projetos de reeleição do governador Jerônimo Rodrigues e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com dois mandatos como deputado estadual e sete como deputado federal — totalizando nove legislaturas consecutivas —, Magalhães acumula uma longevidade parlamentar que poucos nomes na política baiana contemporânea podem reivindicar. Mas o que confere ao deputado uma dimensão que transcende a aritmética legislativa é a combinação singular entre experiência institucional e capital simbólico familiar: sobrinho do ex-governador Antônio Carlos Magalhães, primo do ex-presidente da Câmara Luiz Eduardo Magalhães e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, Paulo carrega o peso histórico de uma das dinastias políticas mais influentes da história republicana baiana.

A travessia: do carlismo ao alinhamento petista

A trajetória recente de Paulo Magalhães representa, em si mesma, um dos movimentos mais emblemáticos da recomposição partidária na Bahia. Herdeiro direto do carlismo — vertente política que durante décadas funcionou como antípoda do petismo no estado —, o deputado trilhou caminho distinto do núcleo familiar liderado por ACM Neto. Ao integrar o PSD sob a articulação do senador Otto Alencar, Magalhães consolidou alinhamento orgânico com os governos petistas que se sucederam no Palácio de Ondina: Jaques Wagner, Rui Costa e, na quadra atual, Jerônimo Rodrigues.

Essa migração não é trivial nem meramente circunstancial. Ela sinaliza uma leitura pragmática do realinhamento de forças na Bahia e, ao mesmo tempo, confere à base governista um ativo político de difícil replicação: a presença de um Magalhães no campo petista opera como elemento simbólico de diluição da antiga polarização estrutural entre carlismo e petismo, clivagem que organizou a política estadual por mais de duas décadas. O gesto tem valor estratégico na medida em que amplia o espectro ideológico da coalizão, incorporando segmentos moderados e setores historicamente avessos ao PT.

O efeito Coronel e a concentração do eixo PSD

A desvinculação de Ângelo Coronel do grupo governista subtraiu do PSD baiano um polo de projeção majoritária que, embora instável nos últimos ciclos, ainda representava peso eleitoral significativo. Com sua saída, o eixo decisório do partido no estado concentra-se ainda mais na liderança de Otto Alencar — e, no plano parlamentar federal, na figura de Paulo Magalhães.

Nos bastidores da coalizão, interlocutores qualificados avaliam que o fortalecimento de Magalhães é estratégico por razões que ultrapassam a mera recomposição numérica da bancada. Em primeiro lugar, o deputado é percebido como quadro de alta previsibilidade política, atributo especialmente valorizado em um ambiente de reagrupamento e incerteza. Em segundo lugar, sua origem familiar confere à base governista uma amplitude eleitoral que nenhum outro nome fora do PT é capaz de reproduzir: Magalhães dialoga com eleitores que jamais votariam em candidatos identificados com o petismo, mas que reconhecem na tradição familiar um referencial de gestão e articulação política. Em terceiro lugar, sua experiência legislativa de quase quatro décadas e o trânsito consolidado em Brasília fazem dele um interlocutor privilegiado entre o governo estadual e o Congresso Nacional — função cuja importância tende a se intensificar no ciclo pré-eleitoral.

A ponte simbólica e a construção da frente ampla

Há, na presença de Paulo Magalhães no campo governista, uma dimensão que escapa ao cálculo eleitoral imediato e que diz respeito à própria narrativa política da Bahia. A antiga dicotomia carlismo–petismo, que durante os governos de ACM e as primeiras gestões petistas funcionou como gramática organizadora do sistema partidário estadual, perdeu progressivamente sua capacidade explicativa à medida que as fronteiras entre os campos se tornaram mais porosas. A adesão de um herdeiro direto do carlismo ao projeto petista não apenas confirma essa porosidade como a institucionaliza.

Para a estratégia governista voltada a 2026, esse elemento assume relevância particular. Em um cenário nacional que tende à polarização entre lulismo e bolsonarismo — com desdobramentos regionais que podem reproduzir essa lógica binária —, a capacidade de apresentar uma coalizão que transcenda as fronteiras tradicionais do petismo constitui vantagem competitiva. Paulo Magalhães, nesse sentido, não é apenas um deputado aliado: é um signo político de que a base governista na Bahia é mais ampla, mais plural e mais heterogênea do que a moldura partidária do PT poderia sugerir.

Reeleição como imperativo estratégico

É nesse contexto que ganha corpo, entre lideranças da coalizão, a avaliação de que a reeleição de Paulo Magalhães para a Câmara dos Deputados deve ser tratada não como projeto individual, mas como prioridade do grupo político governista. O raciocínio é direto: sua permanência no Legislativo federal garante continuidade institucional, preserva o equilíbrio interno do PSD, fortalece o eixo de sustentação não petista da base e contribui diretamente para a estabilidade do projeto de reeleição de Jerônimo Rodrigues. Perder um quadro com esse perfil — longevo, leal, simbolicamente denso e institucionalmente eficaz — significaria, na avaliação de aliados, fragilizar a engrenagem que sustenta a coalizão em um momento de disputa acirrada.

A leitura predominante nos bastidores é de que o custo político de uma eventual não reeleição de Magalhães seria desproporcionalmente superior ao investimento necessário para assegurá-la. Trata-se, nas palavras de um articulador governista, de “proteger uma peça que não se substitui com facilidade”.

Função estratégica, não majoritária

É preciso, no entanto, situar o papel de Paulo Magalhães com precisão analítica. O centro gravitacional da disputa majoritária em 2026 seguirá concentrado em nomes como Jerônimo Rodrigues, Otto Alencar e Rui Costa no campo governista, e ACM Neto no campo oposicionista. Magalhães não disputa — nem pretende disputar — a cena majoritária. Sua relevância é de outra natureza: trata-se de uma função estrutural, de sustentação e articulação, cuja importância se mede menos pela visibilidade pública e mais pela capacidade de manter coesa a engrenagem política que viabiliza os projetos majoritários.

Nesse sentido, seu capital político combina elementos que raramente convergem em um mesmo ator: experiência parlamentar acumulada ao longo de nove mandatos, reconhecimento estadual consolidado, simbolismo familiar de alto peso histórico, lealdade partidária estável e compromisso público com a reeleição tanto do governador quanto do presidente. É essa combinação que torna sua posição, no atual rearranjo de forças, praticamente insubstituível.

A engrenagem silenciosa de 2026

Se a eleição de 2026 na Bahia tende a ser polarizada no plano majoritário, sua definição dependerá menos dos embates de superfície e mais da robustez das estruturas de sustentação que cada campo é capaz de mobilizar. Bancadas parlamentares coesas, articuladores institucionais experientes e pontes simbólicas entre tradições políticas distintas são os elementos que, nos bastidores, decidem eleições tanto quanto os palanques.

Nesse desenho, Paulo Magalhães ocupa posição que extrapola a dimensão individual de sua candidatura. Sua reeleição passa a integrar, para setores relevantes do grupo governista, o cálculo mais amplo de consolidação do eixo PSD–PT na Bahia — e, por extensão, de sustentação do projeto nacional de Lula. A reorganização silenciosa do tabuleiro político baiano indica que, para além dos nomes que disputam o protagonismo na chapa majoritária, a eleição de 2026 será decidida, em larga medida, pela solidez das fundações que garantem sustentação política. E, nessa arquitetura, o deputado de nove mandatos ocupa posição de relevância crescente — não como peça decorativa da coalizão, mas como engrenagem funcional do projeto de poder que ela representa.

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