Por que o 39 a 38 pode enganar

A Genial/Quaest deu empate técnico entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues. Quem parar no número da manchete vai perder o que a pesquisa tem de mais relevante para entender a sucessão baiana.

Por Jerbson Moraes

Advogado, mestrando em Direito e colunista

Em 15 de julho de 2022, a Genial/Quaest publicou números que pareciam encerrar a disputa pelo governo da Bahia antes mesmo de a campanha começar. ACM Neto tinha 61% das intenções de voto. Jerônimo Rodrigues, 11%. Cinquenta pontos de diferença. Quase três meses depois, na véspera do primeiro turno, o Datafolha ainda projetava o ex-prefeito de Salvador com 51% dos votos válidos contra 38% do petista. No dia 2 de outubro, apuradas as urnas, o placar era quase o inverso: 49,33% para Jerônimo, 40,88% para ACM Neto. Faltou menos de um ponto percentual para que a eleição terminasse ali.

Não conto essa história para sugerir que ela vá se repetir. Não vai, ao menos não nos mesmos termos. Em 2022, o candidato governista era um desconhecido em ascensão, apresentado ao eleitorado pela propaganda de rádio e TV e pelo aval de Rui Costa. Hoje é um governador com quatro anos de gestão para defender, o que muda tudo, inclusive para pior. O que aquele episódio autoriza concluir é bem menos ambicioso e bem mais útil: na Bahia, pesquisa de julho já se mostrou um péssimo instrumento para prever outubro. Serve para medir o humor do eleitor agora. Não serve para fechar a conta.

A rodada divulgada em 29 de julho traz ACM Neto com 39% e Jerônimo com 38% nos dois cenários testados de primeiro turno. São 1.200 entrevistas presenciais, feitas entre os dias 23 e 27 em 61 municípios, margem de erro de três pontos e nível de confiança de 95%, tudo registrado na Justiça Eleitoral sob o número BA-02331/2026. Do ponto de vista estatístico, ninguém está na frente. E há um dado que quase nunca sobrevive à manchete: 44% dos entrevistados dizem que ainda podem mudar o voto para governador.

Parar no 39 a 38 não chega a ser erro, mas é pouco. Intenção de voto estimulada, em julho, mede tanto reconhecimento de nome quanto convicção política, e reconhecimento de nome é exatamente o que se altera quando a propaganda entra no ar. A pesquisa é uma fotografia. Eleição é filme.

O que está embaixo do empate interessa mais. A gestão de Jerônimo tem 57% de aprovação contra 34% de desaprovação, saldo de 23 pontos, ligeiramente melhor do que o de abril, quando marcava 56% a 33%. Cinquenta e dois por cento dos entrevistados acham que ele merece ser reeleito; 41% pensam o contrário. Na espontânea, aquela em que o entrevistador não oferece nomes, o governador aparece com 18% e ACM Neto com 17%. Um ponto, muito abaixo da margem de erro, o que quer dizer que ninguém lidera nada ali. Quer dizer apenas que a lembrança espontânea do eleitor baiano não está punindo o governo, e isso já é alguma coisa.

Nenhum desses números ganha eleição. Governador bem avaliado que perde a reeleição é figura recorrente na história política brasileira, e quem acompanha a Bahia sabe que avaliação de governo e voto para governador nem sempre andam juntos. Ainda assim, há uma diferença prática entre disputar o segundo mandato com a opinião pública a favor e disputá-lo contra ela.

Vem daí o segundo ponto. Na mesma pesquisa, Lula tem 52% na Bahia contra 18% de Flávio Bolsonaro. Trinta e quatro pontos. Entre o desempenho do presidente no estado e o do seu candidato a governador existe hoje um vão de catorze pontos, e é dentro desse vão que a eleição baiana vai ser disputada.

Foi mais ou menos assim em 2022. Conforme a campanha nacionalizou a disputa estadual, boa parte do eleitor que já tinha o voto presidencial resolvido foi buscando coerência no voto para governador. A propaganda gratuita fez o trabalho de sempre: apresentou o desconhecido, colou nele a gestão anterior e o palanque de Lula e empurrou a disputa para a polarização que transforma voto disperso em voto útil. A diferença é que agora quase nada disso está por fazer. Jerônimo é conhecido, governa, tem prefeitos, deputados e diretórios espalhados pelo interior e divide palanque com um presidente que lidera com folga no estado.

Há um número de 2022 que quase nunca aparece nas análises. No segundo turno, Jerônimo foi o mais votado em 364 dos 417 municípios da Bahia. ACM Neto venceu em 53. A eleição baiana não se decide em Salvador, e o interior, onde a máquina estadual e as prefeituras aliadas pesam mais, é território assentado do governo.

Quem ler a pesquisa só até aqui vai ler mal, porque ela também traz problemas sérios para o Palácio de Ondina. A rejeição é o mais evidente deles: 40% dos entrevistados dizem conhecer Jerônimo e afirmam que não votariam nele de jeito nenhum, contra 33% de ACM Neto. Rejeição alta é o obstáculo clássico à vitória em primeiro turno, porque o crescimento na reta final depende do eleitor que já ouviu falar do candidato e resolveu que não vota nele.

Some-se a isso a simulação de segundo turno, em que ACM Neto marca 43% contra 39%. A diferença cabe na margem de erro, mas vem se repetindo desde abril, quando o placar era 41% a 38%, e sugere que os votos hoje dispersos não se acomodam automaticamente do lado do governo no confronto direto.

O dado mais consequente, porém, é o religioso. Entre católicos, Jerônimo ganha de 45% a 37%, e a aprovação da gestão chega a 63%. Entre evangélicos, o jogo vira: 47% para ACM Neto contra 29%, com aprovação e desaprovação empatadas em 44%. É um eleitorado grande, capilarizado nos bairros das capitais e nas cidades médias do interior, mobilizado como poucos, e é ali que o alinhamento do ex-prefeito ao campo à direita, depois do rompimento do União Brasil com o governo federal, tende a render mais.

Reconhecido tudo isso, continuo achando que a pergunta que domina o debate baiano está mal feita. Todo mundo quer saber se vai haver segundo turno. A pergunta tecnicamente interessante é outra: existem condições objetivas para o governador alcançar a maioria absoluta dos votos válidos já no dia 4 de outubro?

Um indicador isolado não diz nada. Vários apontando para o mesmo lado tampouco provam resultado, mas já autorizam falar em tendência. Ainda vêm por aí as convenções, os debates, o horário eleitoral, os acordos de última hora e os fatos novos que sempre aparecem, e a Bahia, 2022 está aí para lembrar, costuma decidir tarde. Só que quem quiser acertar o prognóstico faria melhor olhando menos para o ponto de diferença no alto da tabela e mais para os catorze pontos que separam Lula de Jerônimo.

A pesquisa não autoriza dizer que Jerônimo Rodrigues vence no primeiro turno. Também não autoriza dizer o contrário. Ela faz outra coisa, talvez mais importante: pela primeira vez desde o início da sucessão estadual, inverte o ônus da prova.

Quem sustenta que a eleição será inevitavelmente decidida no segundo turno não pode mais se apoiar apenas nas pesquisas. Vai ter de explicar por que um governador com aprovação majoritária, com maioria querendo sua recondução, empatado na lembrança espontânea, com arco de alianças montado e um palanque presidencial dominante na Bahia deixaria de converter tudo isso em maioria absoluta dos votos válidos.

A dúvida deixou de ser se existe caminho para o primeiro turno. Passou a ser por que esse caminho não existiria.

Fontes dos dados citados: Genial/Quaest, pesquisa registrada sob o nº BA-02331/2026 (1.200 entrevistas presenciais, 61 municípios, 23 a 27 de julho de 2026, margem de erro de 3 p.p., 95% de confiança); Genial/Quaest de 15 de julho de 2022; Datafolha, véspera do 1º turno de 2022; Tribunal Superior Eleitoral, resultados de 2022.

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