Após sua exoneração do cargo de chefe da Casa Civil de Teixeira de Freitas, Marcelo Matos divulgou uma nota pública em tom firme, marcada por fortes críticas aos bastidores da administração municipal e por declarações que ampliam a crise política instalada no governo.
A acusação
O trecho de maior impacto da manifestação é a afirmação de que teria sido “chamado de criminoso” durante uma reunião realizada a portas fechadas, da qual, segundo ele, sequer foi convidado a participar.
“Na manhã de hoje, tomei conhecimento de que, em reunião a portas fechadas da qual não fui convidado a participar, foi atribuído a mim um rótulo extremamente grave: o de criminoso.”
Na nota, Marcelo Matos afirma que a acusação teria sido feita sem qualquer prova, explicação concreta ou oportunidade de apresentar sua versão dos fatos, classificando a situação como um julgamento precipitado.
Reflexão e motivações
Ao longo do texto, o ex-chefe da Casa Civil faz uma reflexão inspirada em Carlos Drummond de Andrade sobre a verdade e afirma que, muitas vezes, as pessoas enxergam apenas a parte da realidade que lhes convém, transformando versões parciais em verdades absolutas.
Marcelo também sugere que sua saída pode estar relacionada a três fatores:
1. Auditorias realizadas durante sua atuação no governo, especialmente envolvendo aplicação de recursos públicos, contratos administrativos e serviços de saúde
2. Processo judicial em que diz ter obtido reconhecimento de um direito pelo Poder Judiciário
3. Questionamento de dinâmica administrativa que, segundo sua visão, concentrava influência excessiva em torno de um agente político com atuação em setores estratégicos da Prefeitura — contratações públicas, execução orçamentária, obras e gestão administrativa
Posicionamento
Sem citar nomes, o ex-secretário declara que sempre defendeu uma administração pública baseada na transparência, no interesse público e distante de grupos de influência ou interesses particulares.
Outro trecho marcante da nota destaca que sua trajetória de mais de vinte anos no serviço público não pode ser apagada por aquilo que classificou como “narrativas construídas sobre meias-verdades”.
Ao encerrar a manifestação, Marcelo Matos afirma deixar o governo com a consciência tranquila, ressaltando que sempre exerceu suas funções com responsabilidade, probidade e respeito às instituições.
O histórico do conflito
É conhecida uma briga entre Marcelo Matos e o procurador do município, Leandro Saboia Laudano, inclusive com boletim de ocorrência registrado e processo judicial, que culminou em uma indenização. A briga com Leandro Saboia teria sido o fator decisivo para a exoneração do competente e querido por muitos funcionários públicos, Marcelo Matos.
Repercussão
A publicação aumenta ainda mais a repercussão da crise interna na administração municipal, que ganhou força após sua exoneração e diante dos recentes desgastes envolvendo integrantes do alto escalão do governo. Agora, a nota pública do ex-chefe da Casa Civil coloca novos elementos no debate político e pode gerar novos desdobramentos nos próximos dias.
Segue a nota na íntegra:
Pessoal, boa tarde!
Hoje encerro um ciclo neste governo e, antes de qualquer palavra, quero deixar uma reflexão.
Carlos Drummond de Andrade, em um de seus poemas sobre a verdade, nos lembra que ela raramente se apresenta de forma simples ou absoluta – possui várias faces, e cada um enxerga apenas a parte que lhe convém, tomando-a como se fosse a verdade inteira. É assim que se formam os julgamentos precipitados: a partir de uma fração da realidade, elevada à condição de verdade absoluta, sem espaço para o contraditório.
E, falando em verdades, gostaria de compartilhar algumas considerações sobre minha caminhada, o que vivi, aprendi e construí ao longo de duas décadas dedicadas à Administração Pública.
Aprendi, nesse período, que uma gestão verdadeiramente forte não se constrói apenas com concordâncias. Ela se fortalece quando há espaço para o diálogo, para a divergência responsável e para aqueles que, mesmo integrando uma equipe de governo, têm a coragem de questionar, fiscalizar e apontar caminhos diferentes quando entendem que isso atende melhor ao interesse público.
Infelizmente, em certos momentos, parece prevalecer a lógica de que quem exerce esse papel é visto como obstáculo, ou até como inimigo, especialmente quando suas posições contrariam interesses ou expõem situações que precisam ser esclarecidas.
Foi assim com tantos que passaram por este governo e tiveram, em algum momento, suas trajetórias marcadas pela mesma incompreensão. Cito Anderson, Rejane, Elenita, Sandra, Ana, Nathalia e tantos outros nomes que, se mencionados um a um, tornariam esta mensagem bem mais longa. O que mais consterna é ver histórias reduzidas a rótulos e julgamentos precipitados, sem o devido respeito ao contraditório e à análise responsável dos fatos.
O tempo, porém, tem uma característica singular: revela circunstâncias, esclarece acontecimentos e mostra que narrativas construídas em momentos de conveniência nem sempre resistem à realidade. A história costuma dar suas respostas, algumas vezes de forma lenta e silenciosa, outras de maneira inevitável.
Na manhã de hoje, seguindo uma dinâmica já observada antes, tomei conhecimento de que, em reunião a portas fechadas da qual não fui convidado a participar, foi atribuído a mim um rótulo extremamente grave: o de criminoso. Tal afirmação teria ocorrido sem qualquer explicação concreta, elemento probatório ou oportunidade de esclarecimento.
Não sei ao certo qual circunstância motivou esse julgamento. Talvez esteja relacionada às auditorias que realizei no exercício das minhas atribuições, nas quais identifiquei situações que mereciam apuração, especialmente quanto à aplicação de recursos públicos, à execução de contratos e à eficiência dos serviços de saúde.
Talvez esteja relacionada ao processo judicial em que tive reconhecido um direito legítimo, por decisão do Poder Judiciário, após o Município não recorrer dentro do prazo legal.
Ou talvez esteja relacionada ao fato de eu ter passado a questionar uma dinâmica administrativa que, a meu ver, concentrava influência excessiva em torno de determinado agente político, com reflexos sobre setores estratégicos da Administração — contratações públicas, execução orçamentária, obras e gestão administrativa, envolvendo agentes em funções relevantes cujas relações profissionais e políticas mereciam, no mínimo, transparência e acompanhamento institucional.
Nunca questionei pessoas por suas origens, relações pessoais ou trajetórias. Sempre defendi que a Administração Pública deve estar acima de vínculos pessoais, grupos de influência ou interesses particulares, prevalecendo sempre o interesse público.
Ao longo de vinte anos de serviço público, construí uma história baseada em trabalho, responsabilidade e compromisso institucional. Essa trajetória não pode ser apagada por narrativas construídas sobre meias-verdades.
Sigo com a tranquilidade de quem exerceu e exerce suas atribuições com zelo, probidade, dedicação e absoluto respeito às instituições. Cada um enxergou o que quis enxergar, e assim julgou. Como diria Drummond: cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
É essa consciência que levo comigo ao encerrar este ciclo.
Marcelo Matos

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