O Banco Master e o fim do monopólio da virtude

Toda eleição brasileira recorre a um enredo cômodo, que raramente se questiona: a política repartida entre os probos e os suspeitos, entre os que servem à causa pública e os que dela se aproveitam. É uma dramaturgia útil, porque dispensa o eleitor do trabalho mais árduo, o de examinar programas e cotejar resultados, e o convida a decidir por simpatia moral. Na Bahia, o caso Banco Master prometia ser mais um capítulo desse gênero. Acabou produzindo o oposto.

Quando a Operação Compliance Zero alcançou o senador Jaques Wagner, com medidas cautelares autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, boa parte da oposição imaginou ter enfim o fato definitivo, aquele capaz de converter a disputa de 2026 num plebiscito ético contra o grupo que administra o Estado há quase duas décadas. A leitura tinha lógica. Wagner não é um senador qualquer: é o principal estrategista do PT baiano, o arquiteto das vitórias de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues e uma das vozes de maior peso no governo Lula. Alcançá-lo seria atingir a própria coluna de sustentação do projeto petista no Nordeste.

Sucede que a política raramente segue o roteiro que se escreve para ela.

Conforme a apuração avançou, veio à tona o que desmancha qualquer leitura maniqueísta. O Banco Master não cultivava um campo apenas; cultivava todos. Os relatórios encaminhados à CPI do Crime Organizado desenham um mapa de pagamentos que percorre o espectro ideológico de uma ponta à outra, do ex-presidente Michel Temer a ex-ministros de Lula, como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, passando por nomes do União Brasil, como Antonio Rueda, e por figuras que gravitaram em torno do governo Bolsonaro. No coração do tabuleiro baiano, aparece o maior líder da oposição estadual, ACM Neto.

De acordo com dados do Coaf e da Receita Federal divulgados pela imprensa, uma empresa de consultoria da qual o ex-prefeito de Salvador é sócio recebeu pagamentos milionários do banco. Sua defesa afirma que os contratos foram formais, com notas fiscais e recolhimento de tributos, firmados quando ele já não ocupava cargo público e sem nenhuma ligação com os fatos investigados. Até aqui, não se tem notícia de denúncia criminal contra ACM Neto por causa desses contratos.

A esse capítulo somou-se, nas últimas semanas, um segundo. Reportagem da revista piauí sobre as festas do banqueiro Daniel Vorcaro em Trancoso, no extremo sul do Estado, incluiu ACM Neto entre os frequentadores da mansão avaliada em cerca de R$ 280 milhões, descrita pela publicação como cenário de recepções suntuosas. A reação do pré-candidato traiu o desconforto: sua assessoria começou por negar que ele algum dia houvesse pisado no imóvel e, avisada de que o nome seria mantido na matéria, corrigiu-se, admitindo uma visita única, em 2024, e rejeitando de modo enfático qualquer presença em festas. Não há, por ora, elemento que o desminta, nem imputação criminal nascida do episódio. Mas o recuo seguido de admissão, num terreno tão delicado, dificilmente escapa ao juízo do eleitor.

O esclarecimento é obrigatório, porque as situações estão longe de se equivaler, e igualá-las seria incorrer no mesmo simplismo que se pretende combater. Wagner é investigado formalmente, sob suspeita de vantagens indevidas e de atuação parlamentar favorável à instituição, o que o coloca diante de um procedimento de natureza penal, ainda que não seja réu nem tenha sido denunciado, aplicando-se-lhe por inteiro a presunção de inocência. ACM Neto diz ter mantido com o banco relação privada, de caráter estritamente contratual. Os planos jurídicos são diversos e assim precisam ser tratados.

O impasse, porém, não está no direito, e sim na política. É nesse terreno que a acusação moral encontra o seu limite.

Quem deseja fazer do Banco Master um patrimônio exclusivo do adversário esbarra numa dificuldade retórica das mais simples: terá de explicar por que a mesma instituição mantinha contratos milionários com a principal liderança do seu próprio lado. Assim que percebe que o banco falava, ao mesmo tempo, com situação e oposição, com a esquerda e a direita, com ex-presidentes e pré-candidatos, o eleitor troca de pergunta. Já não indaga quem recebeu, mas o que aquele grupo econômico pretendia comprar ao se avizinhar, a um só tempo, de lideranças tão diferentes entre si.

Aí reside, quem sabe, a revelação mais importante do episódio. Antes de um caso local, ele escancara um método: a habilidade de certos agentes econômicos de manter conversa paralela com todos os vértices do poder, sem se deter nas fronteiras ideológicas que estruturam o debate. Nada disso significa dizer que todos os contratados praticaram ilícitos, pois a presunção de inocência não é benefício que se distribua a conta-gotas. Significa apenas admitir que a influência procurada era abrangente e sistêmica, arquitetada para não depender do resultado de eleição nenhuma.

Essa percepção tem efeito eleitoral quase imediato, porque estreita o espaço dos discursos de superioridade moral. Numa Bahia em que a polarização entre PT e União Brasil ordena a vida política há anos, o Banco Master tirou dos dois campos a chance de subir sozinho ao pedestal da virtude.

A oposição continuará explorando o desgaste de Jaques Wagner, e é natural que o faça, pois a investigação é séria e o interesse público, legítimo. O governo, na direção contrária, lembrará que a maior liderança adversária, além dos contratos milionários, esteve na residência do banqueiro em Trancoso. Forma-se um estranho equilíbrio de constrangimentos: no lugar do escândalo que decidiria a eleição, um caso que desarma boa parte da munição moral dos dois lados.

Talvez esteja aí a herança política mais durável do episódio. Não a de trocar o favorito da disputa, mas a de impedir que qualquer candidato convença o eleitor de que a ética pertence, com exclusividade, ao seu grupo.

Numa democracia, a credibilidade não brota da retórica. Nasce da disposição de submeter aliados e adversários à mesma régua de transparência, legalidade e responsabilidade pública. Se essa régua servir para todos, a política baiana sairá mais forte do que entrou. Servindo apenas para o adversário, o Banco Master terá legado somente mais um capítulo da velha guerra de narrativas, aquela em que a virtude não passa de discurso.

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