A liderança muda de mãos, e o resto ainda é apuração

A troca na liderança do governo no Senado tem o tamanho que tem, e não convém inflá-lo nem reduzi-lo. Jaques Wagner deixou a função poucos dias depois de se tornar alvo da Operação Compliance Zero. A coincidência temporal é evidente. O que permanece em debate é o significado político da decisão.

Nos bastidores de Brasília, a avaliação predominante é de que a mudança atende a uma lógica institucional. A liderança do governo exige dedicação integral à articulação política, à negociação de pautas e à construção de consensos. Quando seu ocupante passa a dividir essa agenda com a própria defesa em uma investigação de grande repercussão, a capacidade de exercer plenamente a função tende a ser afetada.

Daí a decisão anunciada após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Wagner afirmou que a saída foi construída em comum acordo e reiterou que não praticou qualquer irregularidade. Pode-se concordar ou discordar dessa versão. O que não se pode fazer, neste momento, é transformar a renúncia ao cargo em prova de culpa. A decisão de deixar uma função política para concentrar esforços na própria defesa é compatível com quem continua afirmando sua inocência.

Também é preciso situar corretamente o estágio do processo. Não há denúncia recebida, ação penal instaurada ou condenação judicial. O que existe é uma investigação em andamento, destinada justamente a reunir elementos para que as autoridades decidam se há fundamento para uma acusação formal. Essa diferença não é detalhe técnico; é um dos pilares do Estado de Direito. Confundir investigação com condenação significa inverter a lógica do devido processo legal.

Há outro aspecto que merece igual cuidado. A investigação tem destinatário definido: o senador Jaques Wagner. Até o momento, não há qualquer imputação envolvendo o governador Jerônimo Rodrigues ou a administração estadual. A gestão baiana segue desenvolvendo sua agenda administrativa, e os fatos apurados pela Polícia Federal não alcançam, até aqui, o governo do Estado.

Estender automaticamente os efeitos políticos da investigação ao governador significaria romper com um princípio básico da responsabilidade individual. Em uma democracia constitucional, cada agente público responde pelos próprios atos. Relações partidárias, alianças eleitorais ou afinidades políticas não substituem prova nem criam responsabilidade jurídica compartilhada.

É natural que adversários procurem ampliar o alcance político do episódio. Da mesma forma, é esperado que aliados busquem reduzir seus efeitos. O papel do jornalismo, contudo, não é aderir a nenhuma dessas narrativas, mas distinguir o que está comprovado daquilo que ainda depende da conclusão das investigações.

O fato político é objetivo: mudou o líder do governo no Senado. As razões institucionais para essa mudança são compreensíveis. Já as consequências eleitorais para a Bahia e para o projeto político liderado por Jerônimo Rodrigues permanecem no campo das hipóteses. Antecipá-las como fato seria incorrer no mesmo erro de quem trata uma investigação como sentença.

No fim, o cenário recomenda menos pressa e mais método. A liderança mudou de mãos. O restante continua submetido ao tempo da apuração, ao contraditório e às decisões que ainda serão produzidas pela Justiça

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