Jerbson Moraes e o Sul da Bahia: a longa espera por um nome que some votos, não os divide

Há uma máxima silenciosa na política baiana que estrategistas eleitorais repetem entre si como diagnóstico: o sul do Estado não sofre pela ausência de lideranças — sofre pela ausência de convergência entre elas. A diferença parece semântica. Produz efeitos devastadores.

Enquanto regiões como o oeste e o norte da Bahia aprenderam, ao longo de décadas, a transformar densidade eleitoral em representação parlamentar contínua, a Costa do Cacau permanece refém de um fenômeno recorrente: múltiplas candidaturas competitivas que, em vez de se potencializarem, se neutralizam mutuamente, devolvendo à capital o protagonismo político que Ilhéus, Itabuna e o litoral sul teriam condições objetivas de disputar.

O resultado é conhecido: uma das regiões economicamente mais relevantes da Bahia segue sub-representada numa Assembleia Legislativa onde seu peso eleitoral não encontra correspondência proporcional. É nesse contexto — e não como episódio isolado — que o nome do advogado e ex-presidente da Câmara Municipal de Ilhéus, Jerbson Almeida Moraes, voltou a circular com intensidade crescente nos bastidores políticos regionais. Não como especulação passageira, mas como resposta possível a um vazio político que o eleitorado da região há anos percebe, mesmo sem ainda saber nomeá-lo.

O PERFIL QUE A POLÍTICA CONTEMPORÂNEA PASSOU A EXIGIR

A emergência do nome de Jerbson Moraes — Jerbinho, como é chamado com familiaridade por aliados, lideranças comunitárias e operadores políticos de toda a Costa do Cacau — não decorre de circunstância momentânea. É o resultado acumulado de décadas de presença institucional que o calendário eleitoral não criou e, por isso mesmo, não pode desfazer.

Advogado com atuação consolidada em praticamente toda a região cacaueira — de Canavieiras a Buerarema, de Una a Uruçuca, de Itabuna ao litoral sul —, Moraes construiu um tipo específico de capital político raramente captado pelas pesquisas tradicionais: o reconhecimento territorial prévio. O profissional que circula permanentemente entre municípios, tribunais e instituições públicas estabelece vínculos que campanhas eleitorais dificilmente conseguem produzir artificialmente. Quando chega o período eleitoral, esse capital já está sedimentado — e o eleitor que conhece Jerbinho do fórum, da audiência ou da mobilização comunitária carrega essa memória para a urna.

“O candidato que o eleitor já conhece antes da campanha parte com uma vantagem que nenhum marqueteiro consegue replicar em tempo eleitoral”.

No plano legislativo, sua passagem pela presidência da Câmara Municipal de Ilhéus consolidou iniciativas de impacto direto na vida cotidiana. A Lei Municipal nº 4.112/2021, que limitou tarifas de esgoto cobradas pela concessionária — medida posteriormente respaldada por instâncias superiores —, e a Lei nº 3.933/2018, que exigiu sinalização luminosa prévia para radares eletrônicos, são frequentemente lembradas como exemplos de legislação municipal com efeito prático imediato. São medidas locais — mas politicamente decisivas: constroem no eleitorado a percepção de mandato eficaz, percepção que costuma migrar naturalmente para disputas de âmbito estadual.

O CÁLCULO SILENCIOSO DO GOVERNISMO

Nos círculos que assessoram o governador Jerônimo Rodrigues, a eventual candidatura de Jerbinho não é analisada sob perspectiva individual. É examinada como variável com potencial de alterar a geometria eleitoral do campo governista no sul da Bahia — e, por extensão, no cálculo proporcional de toda a base aliada.

O mecanismo é clássico da política proporcional brasileira, porém frequentemente subestimado fora dos estrategistas de campanha. Candidaturas estaduais com forte enraizamento territorial não disputam apenas suas próprias cadeiras: elas elevam o coeficiente eleitoral de toda a chapa, ampliam a votação proporcional do campo aliado e produzem o que técnicos denominam voto casado — o eleitor que sai de casa mobilizado por um nome regional tende a consolidar, na mesma urna, escolhas alinhadas nas disputas federais.

Nesse cenário, interlocutores políticos apontam que lideranças federais com presença histórica no interior baiano, como o deputado Paulo Magalhães, poderiam ser beneficiadas indiretamente pelo crescimento eleitoral de Moraes na Costa do Cacau. Em termos práticos: fortalecer Jerbinho pode significar fortalecer simultaneamente toda uma estrutura política.

A LEGITIMIDADE CONSTRUÍDA FORA DO CALENDÁRIO ELEITORAL

Há episódios que definem lideranças com mais precisão do que qualquer currículo. O derramamento de óleo que atingiu o litoral nordestino — chegando com força devastadora às praias, manguezais e comunidades pesqueiras do sul da Bahia — foi um deles.

Municípios como Canavieiras, Una e Maraú, cuja base econômica depende estruturalmente do turismo e da pesca artesanal, enfrentaram uma crise simultânea nas dimensões ambiental, econômica e institucional. Em meio à desorientação das primeiras semanas, com a resposta do poder público morosa e a origem do vazamento ainda contestada, Jerbinho participou das articulações jurídicas e institucionais voltadas à defesa dos municípios e trabalhadores afetados.

Lideranças comunitárias que acompanharam aquele período recordam sua presença não como a do político que aparece para a fotografia, mas como a do interlocutor que permaneceu para ajudar a encontrar saídas. Essa distinção — sutil na narrativa, decisiva no imaginário coletivo — é o tipo de capital simbólico que nenhum marqueteiro consegue fabricar. Na política litorânea, onde as memórias de crise se fixam na identidade das comunidades, quem esteve presente no momento crítico ocupa um lugar específico na lembrança do eleitor.

PSD OU SOLIDARIEDADE? O QUE A ESCOLHA REALMENTE SIGNIFICA

Entre todas as perguntas que circulam nos bastidores da Costa do Cacau, a mais recorrente não é se Jerbson Moraes candidatará — é por qual partido. E quem a formula com seriedade compreende o que está em jogo.

O sistema proporcional brasileiro pune candidatos competitivos inseridos em chapas inadequadas com uma eficiência que independe de popularidade individual. De nada vale uma votação expressiva se a legenda não alcança o coeficiente mínimo para participar das sobras, ou se a composição da chapa carece da diversidade territorial necessária para maximizar votos em toda a região. A escolha partidária é, antes de qualquer outra coisa, uma decisão estratégica — e pode ser a diferença entre eleger e não eleger.

O PSD surge como alternativa natural pelo peso estrutural que mantém na Bahia e pela capacidade de acomodar alianças amplas sem restrições ideológicas que limitariam composições num campo político diverso. O partido tem presença municipal consolidada na região e experiência em candidaturas proporcionais competitivas no Estado. O Solidariedade, por sua vez, oferece maleabilidade estratégica e inserção em municípios do interior onde uma candidatura oriunda de Ilhéus precisaria conquistar votos para além de sua base natural — característica relevante num estado em que a vitória proporcional depende da capilaridade territorial, não apenas da força num único município.

Qualquer das duas opções exige negociação — e negociação eleitoral, no Brasil, raramente segue linha reta. O que se pode afirmar é que a escolha da legenda será, provavelmente, o momento mais decisivo de todo o processo, anterior até à campanha propriamente dita.

O OBSTÁCULO ESTRUTURAL: A FRAGMENTAÇÃO QUE O SUL INSISTE EM REPETIR

Haveria otimismo excessivo em imaginar que a emergência de um nome forte resolve, por si só, o problema histórico da representação do sul da Bahia na Assembleia Legislativa. O problema é estrutural — e sua origem não é a ausência de bons candidatos, mas a incapacidade recorrente de coordená-los.

A região produziu, ao longo das últimas décadas, parlamentares estaduais com votações individualmente expressivas — suficientes, em cenário coordenado, para garantir representação consistente na Assembleia. O que faltou, sistematicamente, foram acordos de não competição intrarregional, chapas racionalmente compostas e a disciplina política necessária para converter força difusa em representação concentrada.

Uma eventual candidatura de Jerbinho só alterará esse quadro se vier acompanhada de algo que vai além do esforço individual: um acordo político mais amplo, capaz de evitar a duplicação de candidaturas que historicamente devolve ao centro-oeste e ao recôncavo os votos que o sul produz mas desperdiça. Esse é o verdadeiro teste da candidatura — e ele se resolve não nas urnas, mas nas conversas que antecedem a campanha.

O SILÊNCIO COMO LINGUAGEM POLÍTICA

Até o momento, Jerbson Moraes mantém silêncio público sobre qualquer candidatura. Aliados e adversários interpretam a postura da mesma forma: cálculo político consciente.

Na dinâmica eleitoral brasileira, anunciar candidatura cedo demais tem custos precisos. Abre flancos desnecessários, antecipa disputas por espaço partidário e pode comprometer alianças ainda em formação. O silêncio estratégico — quando praticado por quem tem trajetória para sustentá-lo — funciona como uma forma de manter o debate ativo sem gastar capital político. Nos bastidores do sul da Bahia, esse cálculo é percebido. E contribui, paradoxalmente, para manter Jerbinho em circulação — o que, em política, já é uma forma ativa de presença.

2026: O ANO CHEGOU, A ENCRUZILHADA TAMBÉM

O que está em disputa neste ano eleitoral, para o sul da Bahia, transcende a questão de uma vaga na Assembleia Legislativa. É a capacidade da região de converter seu peso eleitoral em representação política efetiva — algo que ela tem repetidamente falhado em fazer, não por falta de votos, mas por falta de coordenação.

Jerbson Moraes surge, por ora, como possibilidade. Mas uma possibilidade que reúne elementos raramente alinhados ao mesmo tempo: trajetória institucional verificável, reconhecimento territorial construído fora do calendário eleitoral, experiência legislativa com resultados concretos e um momento político em que o governismo baiano tem razões estratégicas para fortalecer sua base no sul do Estado.

Se o projeto sairá do papel, qual legenda acolherá Jerbinho e se a região terá maturidade política para coordenar-se em torno de um nome comum são perguntas que o próprio ano eleitoral ainda está respondendo. O que os bastidores já registram é que, desta vez, o debate ultrapassou a especulação de corredor — e chegou às mesas onde decisões eleitorais reais costumam ser construídas.

Isso, por si só, já é diferente do que aconteceu nas eleições anteriores.

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