{"id":19096,"date":"2026-09-27T14:09:00","date_gmt":"2026-09-27T17:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=19096"},"modified":"2026-10-04T14:10:33","modified_gmt":"2026-10-04T17:10:33","slug":"a-conta-do-clima-chega-mais-cedo-para-as-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=19096","title":{"rendered":"A conta do clima chega mais cedo para as crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p>Crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Quanto mais nova a crian\u00e7a, maior o impacto no seu desenvolvimento, porque a regula\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de um beb\u00ea ainda est\u00e1 se ajustando e tem muito mais dificuldade em resfriar o pr\u00f3prio corpo do que um adulto. O corpo infantil, em forma\u00e7\u00e3o, desidrata mais r\u00e1pido sob calor intenso, transpira menos, sofre mais com a polui\u00e7\u00e3o do ar e com as arboviroses, como a dengue. Crian\u00e7as tamb\u00e9m precisam de mais apoio para sair de situa\u00e7\u00f5es de desastres clim\u00e1ticos, especialmente de \u00e1reas alagadas ou sob risco de deslizamento, situa\u00e7\u00f5es que se tornaram mais frequentes diante da emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema ganhou peso na agenda de governos, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e tamb\u00e9m do UNICEF na \u00faltima d\u00e9cada. O Relat\u00f3rio de Risco Clim\u00e1tico para Crian\u00e7as 2026, publicado em junho, aponta que quase todas as crian\u00e7as do planeta est\u00e3o expostas a pelo menos um risco clim\u00e1tico, e 1,1 bilh\u00e3o delas, perto da metade, convive com tr\u00eas ou mais riscos sobrepostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos riscos \u00e0 pr\u00f3pria vida de crian\u00e7as e adolescentes, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica tem potencializado desigualdades estruturais e produzido efeitos profundos sobre outros direitos, como o acesso \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 em 2025, ainda segundo o UNICEF, eventos extremos interromperam os estudos de 171 milh\u00f5es de alunos em 106 pa\u00edses. Entre 2016 e 2023, os desastres clim\u00e1ticos provocaram 62 milh\u00f5es de deslocamentos internos de crian\u00e7as no mundo, mais de 21 mil por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil n\u00e3o escapa dessa estat\u00edstica. Seis em cada dez crian\u00e7as e adolescentes brasileiros, mais de 30 milh\u00f5es, vivem expostos a dois ou mais riscos clim\u00e1ticos ao mesmo tempo, e 16 milh\u00f5es, a tr\u00eas ou mais. S\u00f3 em 2024, 1,17 milh\u00e3o teve as aulas interrompidas por eventos extremos, entre as enchentes no Rio Grande do Sul e a seca na Amaz\u00f4nia. Aqui, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 desigual: o maior impacto recai sobre popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, onde o perigo clim\u00e1tico encontra falta de saneamento e servi\u00e7os p\u00fablicos mais prec\u00e1rios, aprofundando fragilidades j\u00e1 existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>As desigualdades regionais brasileiras somam-se tamb\u00e9m \u00e0s desigualdades sociais e raciais. Uma pesquisa de 2024 do Instituto Alana com Mapbiomas apontou, por exemplo, que, s\u00f3 nas capitais brasileiras, cerca de 370 mil alunos matriculados na educa\u00e7\u00e3o infantil e no ensino fundamental estudam em escolas localizadas em \u00e1reas de risco, sendo que 90% dessas escolas est\u00e3o dentro ou em um raio de at\u00e9 500 metros de favelas e comunidades urbanas. A maior parte dessas escolas (51%) t\u00eam maioria de alunos negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2026, o cen\u00e1rio j\u00e1 bastante preocupante ganha ainda mais for\u00e7a. O El Ni\u00f1o atual tem mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o ver\u00e3o, segundo a NOAA, ag\u00eancia oce\u00e2nica e atmosf\u00e9rica dos Estados Unidos, e 75% de chance de superar todos os epis\u00f3dios registrados desde 1950. O boletim do governo federal sobre o fen\u00f4meno, publicado no in\u00edcio de setembro, prev\u00ea para os pr\u00f3ximos meses chuva abaixo da m\u00e9dia e calor no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, e chuva em excesso, com mais risco de eventos extremos, no Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o locais e territoriais ainda s\u00e3o insuficientes diante da escala do problema. Mais do que acompanhar a chegada do fen\u00f4meno, \u00e9 preciso investir em diagn\u00f3sticos locais e territoriais de risco: s\u00e3o os bairros e as escolas que melhor conhecem suas pr\u00f3prias vulnerabilidades e onde a \u00e1gua sobe primeiro, onde o calor \u00e9 mais intenso, onde a infraestrutura \u00e9 mais prec\u00e1ria e onde o poder p\u00fablico est\u00e1 mais ausente. \u00c9 esse conhecimento territorial, articulado ao monitoramento cient\u00edfico, que transforma alertas em preven\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p>O alerta est\u00e1 dado, e poucas vezes ele veio com tamanha anteced\u00eancia. A urg\u00eancia agora \u00e9 para que o poder p\u00fablico, para al\u00e9m de buscar dar resposta a situa\u00e7\u00f5es de desastres, coloque em pr\u00e1tica medidas de preven\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o de eventos extremos e que possa ter planos de conting\u00eancia para os efeitos do fen\u00f4meno, priorizando aqueles potencialmente mais impactos: beb\u00eas, crian\u00e7as, adolescentes, idosos e pessoas com defici\u00eancia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O tamanho dos riscos, por\u00e9m, n\u00e3o se reflete no or\u00e7amento. Estudo do Ipea com o UNICEF mostra que, em 2024, o governo federal destinou 4,9% do or\u00e7amento a pol\u00edticas para a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, menos de 2,5% do PIB e longe da prioridade absoluta que a Constitui\u00e7\u00e3o determina. No Congresso, o descompasso \u00e9 ainda mais expl\u00edcito. Levantamento do Instituto de Estudos Socioecon\u00f4micos (Inesc) mostra que menos de 1% das emendas parlamentares dos \u00faltimos tr\u00eas anos foi para a\u00e7\u00f5es exclusivas para crian\u00e7as e adolescentes. Em 2026, foram R$ 208,8 milh\u00f5es, ou 0,4% dos R$ 51,5 bilh\u00f5es previstos, menos da metade do valor de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o termina em 2027, quando os efeitos deste El Ni\u00f1o devem se dissipar. A emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 parte da nova realidade do pa\u00eds, e a preven\u00e7\u00e3o precisa entrar no planejamento e no or\u00e7amento de todos os entes federativos, com as crian\u00e7as em primeiro lugar. \u00c9 o que prop\u00f5e a Agenda 227 \u2013 movimento que re\u00fane mais de 520 organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil \u2013 \u00e0s candidaturas \u00e0 presid\u00eancia e aos governos estaduais: tratar a adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica como pol\u00edtica de inf\u00e2ncia. Entre as propostas est\u00e3o: a inclus\u00e3o de crian\u00e7as, adolescentes e gestantes na estrat\u00e9gia nacional de adapta\u00e7\u00e3o, a regulamenta\u00e7\u00e3o do Plano Nacional de Enfrentamento ao Calor Extremo com esse mesmo recorte e planos de conting\u00eancia para eventos extremos em todas as redes de ensino. Est\u00e1 l\u00e1 tamb\u00e9m a prioridade de acesso a \u00e1gua tratada e esgoto nos domic\u00edlios com crian\u00e7as pequenas, medida b\u00e1sica de adapta\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds adia h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 23 de setembro, foi sancionada, sem vetos, a Lei n\u00ba 15.512\/2026, o \u201cECA Ambiental\u201d. A norma altera o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, a Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente e a Pol\u00edtica Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima para garantir, com absoluta prioridade, o direito de crian\u00e7as e adolescentes \u00e0 natureza e a pol\u00edticas clim\u00e1ticas que os protejam, com aten\u00e7\u00e3o redobrada \u00e0 primeira inf\u00e2ncia, a crian\u00e7as e adolescentes com defici\u00eancia e a quem vive em situa\u00e7\u00e3o de mais vulnerabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro, o pa\u00eds escolher\u00e1 presidente, governadores e parlamentares que v\u00e3o administrar os efeitos deste El Ni\u00f1o e dos que vir\u00e3o. Todos dir\u00e3o que crian\u00e7a \u00e9 prioridade, mas cabe ao eleitor perguntar quanto do or\u00e7amento cada candidatura reserva a essa popula\u00e7\u00e3o e que lugar ela ocupa de fato em seus planos de governo. Entre o aviso e o auge do fen\u00f4meno restam poucos meses, tempo ainda suficiente para preparar escolas, postos de sa\u00fade e defesa civil. O que nenhum governo poder\u00e1 dizer, em janeiro, \u00e9 que foi pego de surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p>*Carolina Maciel, bi\u00f3loga e gestora ambiental, especialista em clima e periferias. \u00c9 analista de natureza no Instituto Alana e conselheira do Conama e integrou o N\u00facleo de Cidades Sustent\u00e1veis, Meio Ambiente e Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Agenda 227.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>*Claudia Vidigal, psic\u00f3loga, especializada em administra\u00e7\u00e3o no terceiro setor, fundadora do Instituto Fazendo Hist\u00f3ria e representante da Funda\u00e7\u00e3o Van Leer no Brasil, institui\u00e7\u00e3o que integra a Agenda 227.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Quanto mais nova a crian\u00e7a, maior o impacto no seu desenvolvimento, porque a regula\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=19096\" title=\"A conta do clima chega mais cedo para as crian\u00e7as\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":14099,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/kids.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19096"}],"collection":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19096"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19096\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19097,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19096\/revisions\/19097"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/14099"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}