{"id":18737,"date":"2026-07-04T20:23:05","date_gmt":"2026-07-04T23:23:05","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18737"},"modified":"2026-07-04T20:23:06","modified_gmt":"2026-07-04T23:23:06","slug":"o-ultimo-convite-de-um-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18737","title":{"rendered":"O \u00faltimo convite de um mestre"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 aus\u00eancias que ultrapassam o c\u00edrculo da fam\u00edlia. Instalam-se tamb\u00e9m no sil\u00eancio das salas de aula e das bibliotecas, nos corredores dos tribunais, nas institui\u00e7\u00f5es que a pessoa ajudou a erguer. A morte de Josevandro Reis Nascimento, aos 74 anos, tem esse alcance. Encerra uma trajet\u00f3ria em que o conhecimento se fez of\u00edcio, sempre a servi\u00e7o da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Advogado, jornalista, escritor e professor, Josevandro pertenceu a uma gera\u00e7\u00e3o que entendia o saber como responsabilidade p\u00fablica. Ilheense, foi vereador, lecionou na Universidade Estadual de Santa Cruz, dirigiu o Cerimonial do Munic\u00edpio e presidiu a Academia de Letras de Ilh\u00e9us. Fundou a Regional Sul da Associa\u00e7\u00e3o Baiana de Imprensa e integrou institui\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e jur\u00eddicas que ajudou a manter de p\u00e9. Essa \u00e9 a biografia que os registros h\u00e3o de preservar.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardo dele outra dimens\u00e3o. Fui seu aluno de Direito na UESC e, anos mais tarde, a advocacia nos reuniu no mesmo of\u00edcio. O professor tornou-se colega, e o conv\u00edvio profissional acabou por gerar uma amizade que atravessou os \u00faltimos anos. Passamos a nos encontrar com frequ\u00eancia para conversar sobre Direito, pol\u00edtica, literatura e sobre Ilh\u00e9us, cidade que ele conhecia como poucos e amava sem reservas.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima dessas conversas foi no dia 11 de junho. Ele estava sereno, bem-humorado, com a lucidez que impressionava seus alunos. A certa altura, contou-me um desejo antigo: atuar comigo num Tribunal do J\u00fari. Queria dividir a tribuna ao meu lado. N\u00e3o se tratava de cortesia de ocasi\u00e3o, mas da confian\u00e7a de quem passara d\u00e9cadas formando advogados e ainda enxergava, num antigo aluno, um parceiro \u00e0 altura do plen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O encontro n\u00e3o chegou a acontecer. A tribuna que imagin\u00e1vamos dividir ficou como projeto que o tempo interrompeu.<\/p>\n\n\n\n<p>De tudo o que dele recordo, essa talvez seja a lembran\u00e7a mais reveladora. Mostra o professor generoso, capaz de reconhecer no ex-aluno um igual, e revela sua paix\u00e3o intacta pelo j\u00fari, esse territ\u00f3rio em que a t\u00e9cnica jur\u00eddica se mede pela palavra e pela capacidade de comover.<\/p>\n\n\n\n<p>O legado n\u00e3o depende, por\u00e9m, de um sonho inacabado. Est\u00e1 nos milhares de alunos que formou, nos livros que deixou, nas institui\u00e7\u00f5es que fortaleceu, no respeito conquistado ao longo de uma vida dedicada ao ensino. Josevandro n\u00e3o ensinava apenas em sala de aula. Ensinava numa audi\u00eancia, numa reuni\u00e3o da academia, num encontro casual de corredor, em qualquer lugar onde houvesse algu\u00e9m disposto a ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>Recebo sua partida com tristeza sincera. Com ele se vai o professor que ajudou a formar meu modo de pensar o Direito, o mesmo homem cuja intelig\u00eancia admirei enquanto colega e cuja amizade me honrou at\u00e9 os \u00faltimos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Daquela conversa de 11 de junho n\u00e3o me esquecerei. Hoje entendo que, sem que soub\u00e9ssemos, era uma despedida. Fica comigo uma d\u00edvida que o destino n\u00e3o deixou saldar: a de dividir uma tribuna com quem primeiro me ensinou o valor da palavra e o compromisso \u00e9tico que sustenta o Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Que Deus conforte sua fam\u00edlia e seus amigos. E que o mestre Josevandro Reis Nascimento descanse em paz, certo de que sua voz seguir\u00e1 ecoando nas salas de aula, nos tribunais e na mem\u00f3ria de quantos tiveram o privil\u00e9gio de aprender com ele.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"962\" height=\"576\" src=\"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/a0c925d6-fe32-4a4d-baee-ac15596f4f9f.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18738\" srcset=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/a0c925d6-fe32-4a4d-baee-ac15596f4f9f.jpg 962w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/a0c925d6-fe32-4a4d-baee-ac15596f4f9f-300x180.jpg 300w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/a0c925d6-fe32-4a4d-baee-ac15596f4f9f-768x460.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 962px) 100vw, 962px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>H\u00e1 aus\u00eancias que ultrapassam o c\u00edrculo da fam\u00edlia. 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