{"id":18733,"date":"2026-07-03T20:20:00","date_gmt":"2026-07-03T23:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18733"},"modified":"2026-07-04T20:20:55","modified_gmt":"2026-07-04T23:20:55","slug":"o-sul-da-bahia-e-a-economia-politica-do-concreto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18733","title":{"rendered":"O Sul da Bahia e a economia pol\u00edtica do concreto"},"content":{"rendered":"\n<p>A inaugura\u00e7\u00e3o da primeira etapa da BA-649, que liga Ilh\u00e9us a Itabuna, poderia passar por mais uma entrega de obra p\u00fablica. L\u00ea-la assim seria perder o essencial. O que se viu nesta sexta-feira, por baixo do vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico da mobilidade e da log\u00edstica, foi um gesto pol\u00edtico: a consolida\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia que devolve ao Sul da Bahia o centro da agenda de infraestrutura do governo estadual, e que o faz \u00e0s v\u00e9speras de um ano eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o alcance disso, \u00e9 preciso lembrar de onde o Sul da Bahia vem. Desde que a vassoura-de-bruxa arrasou a lavoura cacaueira, no fim dos anos 1980, a regi\u00e3o mergulhou num decl\u00ednio prolongado e perdeu boa parte do protagonismo econ\u00f4mico de outrora, sem que nenhum ciclo posterior o restitu\u00edsse por inteiro. \u00c9 contra esse pano de fundo que a nova estrada ganha sentido: recolocar no mapa uma parte da Bahia que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria pareceu dispensar.<\/p>\n\n\n\n<p>O palanque dizia o resto. Ao lado do governador Jer\u00f4nimo Rodrigues estavam o senador Jaques Wagner, o ex-ministro Rui Costa, o deputado federal Paulo Magalh\u00e3es e lideran\u00e7as de quase todo o territ\u00f3rio sul-baiano. N\u00e3o se re\u00fane tanta gente gra\u00fada para inaugurar dezoito quil\u00f4metros de asfalto. Re\u00fane-se para apresentar um projeto de desenvolvimento regional e, sobretudo, para lhe reivindicar a paternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A rodovia, de cerca de dezoito quil\u00f4metros, integra um sistema vi\u00e1rio pensado para reorganizar o tr\u00e1fego entre as duas maiores cidades da regi\u00e3o, baixar custos de transporte e devolver alguma racionalidade a um eixo econ\u00f4mico que h\u00e1 d\u00e9cadas trabalha no limite. Ao longo da execu\u00e7\u00e3o, o custo subiu, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que novos trechos de integra\u00e7\u00e3o eram incorporados. H\u00e1 quem enxergue nisso um planejamento que se ajusta \u00e0 realidade; h\u00e1 quem reconhe\u00e7a a velha elasticidade dos or\u00e7amentos p\u00fablicos. Provavelmente existe um pouco das duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais importante do evento, por\u00e9m, n\u00e3o estava no que se entregou, e sim no que se prometeu. O governador assinou a ordem de servi\u00e7o do Anel Rodovi\u00e1rio do Banco da Vit\u00f3ria, que dar\u00e1 acesso \u00e0 zona norte de Ilh\u00e9us sem obrigar o motorista a cruzar o centro, e confirmou o projeto de liga\u00e7\u00e3o da nova BA-649 \u00e0 zona sul da cidade. Somadas \u00e0 Ponte Jorge Amado e \u00e0s obras recentes, essas iniciativas desenham, no papel, um corredor metropolitano integrado. A express\u00e3o \u201cno papel\u201d n\u00e3o \u00e9 figura de ret\u00f3rica. Entre assinar uma ordem de servi\u00e7o e cortar a fita de inaugura\u00e7\u00e3o vai uma dist\u00e2ncia que a hist\u00f3ria das obras p\u00fablicas brasileiras n\u00e3o nos deixa esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>O que muda agora \u00e9 a passagem da obra avulsa para o sistema. Por muito tempo, o Sul da Bahia se acostumou a receber interven\u00e7\u00f5es soltas, quase sempre insuficientes, que nunca conversavam entre si. O que se anuncia \u00e9 uma l\u00f3gica diferente: costurar porto, aeroporto, rodovias, malha urbana e \u00e1reas de expans\u00e3o econ\u00f4mica dentro de uma concep\u00e7\u00e3o \u00fanica. A ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima. Se sair do papel, ser\u00e1 transformadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, \u00e9 bom fugir dos superlativos. Dizer que a regi\u00e3o foi a que mais recebeu investimentos do Estado exigiria comparar, n\u00famero a n\u00famero, o que se aplicou em todas as outras, conta que o discurso oficial, por raz\u00f5es \u00f3bvias, n\u00e3o faz. O que se pode afirmar com seguran\u00e7a \u00e9 menos grandioso, mas n\u00e3o \u00e9 pouco: poucas \u00e1reas da Bahia re\u00fanem hoje tantas obras estruturantes em andamento ao mesmo tempo quanto Ilh\u00e9us, Itabuna e o entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso \u00e9 obra do acaso. O governo Jer\u00f4nimo parece ter entendido que o Sul da Bahia re\u00fane uma combina\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de achar em outros pontos do estado: porto, aeroporto, malha rodovi\u00e1ria, turismo, agroneg\u00f3cio, minera\u00e7\u00e3o e potencial energ\u00e9tico, tudo no mesmo territ\u00f3rio. Investir aqui n\u00e3o \u00e9 generosidade, \u00e9 c\u00e1lculo: o c\u00e1lculo de quem enxerga na regi\u00e3o um ativo estrat\u00e9gico para a economia baiana e, n\u00e3o custa dizer, um eleitorado que faz diferen\u00e7a na urna.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos, de resto, v\u00e3o muito al\u00e9m do tr\u00e2nsito. Uma boa liga\u00e7\u00e3o vi\u00e1ria derruba custos, atrai investimento privado, valoriza im\u00f3veis, aquece o turismo e abre postos de trabalho. Quando bem feita, a infraestrutura \u00e9 uma das raras pol\u00edticas cujos frutos sobrevivem ao governo que a plantou. Por isso mesmo ela precisa ser cobrada de perto, e n\u00e3o s\u00f3 aplaudida.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica de p\u00e9, como sempre, a dist\u00e2ncia entre o que se anuncia e o que se conclui. O concreto j\u00e1 lan\u00e7ado sobre o Sul da Bahia autoriza uma constata\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de contestar: fazia muito tempo que a regi\u00e3o n\u00e3o via um ciclo de investimento p\u00fablico deste tamanho. Se as obras prometidas realmente sa\u00edrem do papel, Ilh\u00e9us e Itabuna podem chegar \u00e0 pr\u00f3xima d\u00e9cada com a melhor estrutura log\u00edstica de sua hist\u00f3ria. Na pol\u00edtica, promessas produzem manchetes; obras conclu\u00eddas produzem legado. O Sul da Bahia j\u00e1 voltou ao mapa dos grandes investimentos estaduais. Agora, a hist\u00f3ria cobrar\u00e1 aquilo que ela sempre cobra dos governantes: transformar an\u00fancios em realidade e concreto em desenvolvimento permanente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"962\" height=\"577\" src=\"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/fc8bc720-87b8-42dd-b3d5-194210afa5b0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18735\" srcset=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/fc8bc720-87b8-42dd-b3d5-194210afa5b0.jpg 962w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/fc8bc720-87b8-42dd-b3d5-194210afa5b0-300x180.jpg 300w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/fc8bc720-87b8-42dd-b3d5-194210afa5b0-768x461.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 962px) 100vw, 962px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A inaugura\u00e7\u00e3o da primeira etapa da BA-649, que liga Ilh\u00e9us a Itabuna, poderia passar por mais uma entrega de obra p\u00fablica. 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