{"id":18725,"date":"2026-07-01T18:06:15","date_gmt":"2026-07-01T21:06:15","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18725"},"modified":"2026-07-01T18:06:16","modified_gmt":"2026-07-01T21:06:16","slug":"o-banco-master-e-o-fim-do-monopolio-da-virtude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18725","title":{"rendered":"O Banco Master e o fim do monop\u00f3lio da virtude"},"content":{"rendered":"\n<p>Toda elei\u00e7\u00e3o brasileira recorre a um enredo c\u00f4modo, que raramente se questiona: a pol\u00edtica repartida entre os probos e os suspeitos, entre os que servem \u00e0 causa p\u00fablica e os que dela se aproveitam. \u00c9 uma dramaturgia \u00fatil, porque dispensa o eleitor do trabalho mais \u00e1rduo, o de examinar programas e cotejar resultados, e o convida a decidir por simpatia moral. Na Bahia, o caso Banco Master prometia ser mais um cap\u00edtulo desse g\u00eanero. Acabou produzindo o oposto.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a Opera\u00e7\u00e3o Compliance Zero alcan\u00e7ou o senador Jaques Wagner, com medidas cautelares autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, boa parte da oposi\u00e7\u00e3o imaginou ter enfim o fato definitivo, aquele capaz de converter a disputa de 2026 num plebiscito \u00e9tico contra o grupo que administra o Estado h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas. A leitura tinha l\u00f3gica. Wagner n\u00e3o \u00e9 um senador qualquer: \u00e9 o principal estrategista do PT baiano, o arquiteto das vit\u00f3rias de Rui Costa e Jer\u00f4nimo Rodrigues e uma das vozes de maior peso no governo Lula. Alcan\u00e7\u00e1-lo seria atingir a pr\u00f3pria coluna de sustenta\u00e7\u00e3o do projeto petista no Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p>Sucede que a pol\u00edtica raramente segue o roteiro que se escreve para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a apura\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou, veio \u00e0 tona o que desmancha qualquer leitura manique\u00edsta. O Banco Master n\u00e3o cultivava um campo apenas; cultivava todos. Os relat\u00f3rios encaminhados \u00e0 CPI do Crime Organizado desenham um mapa de pagamentos que percorre o espectro ideol\u00f3gico de uma ponta \u00e0 outra, do ex-presidente Michel Temer a ex-ministros de Lula, como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, passando por nomes do Uni\u00e3o Brasil, como Antonio Rueda, e por figuras que gravitaram em torno do governo Bolsonaro. No cora\u00e7\u00e3o do tabuleiro baiano, aparece o maior l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o estadual, ACM Neto.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados do Coaf e da Receita Federal divulgados pela imprensa, uma empresa de consultoria da qual o ex-prefeito de Salvador \u00e9 s\u00f3cio recebeu pagamentos milion\u00e1rios do banco. Sua defesa afirma que os contratos foram formais, com notas fiscais e recolhimento de tributos, firmados quando ele j\u00e1 n\u00e3o ocupava cargo p\u00fablico e sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o com os fatos investigados. At\u00e9 aqui, n\u00e3o se tem not\u00edcia de den\u00fancia criminal contra ACM Neto por causa desses contratos.<\/p>\n\n\n\n<p>A esse cap\u00edtulo somou-se, nas \u00faltimas semanas, um segundo. Reportagem da revista piau\u00ed sobre as festas do banqueiro Daniel Vorcaro em Trancoso, no extremo sul do Estado, incluiu ACM Neto entre os frequentadores da mans\u00e3o avaliada em cerca de R$ 280 milh\u00f5es, descrita pela publica\u00e7\u00e3o como cen\u00e1rio de recep\u00e7\u00f5es suntuosas. A rea\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-candidato traiu o desconforto: sua assessoria come\u00e7ou por negar que ele algum dia houvesse pisado no im\u00f3vel e, avisada de que o nome seria mantido na mat\u00e9ria, corrigiu-se, admitindo uma visita \u00fanica, em 2024, e rejeitando de modo enf\u00e1tico qualquer presen\u00e7a em festas. N\u00e3o h\u00e1, por ora, elemento que o desminta, nem imputa\u00e7\u00e3o criminal nascida do epis\u00f3dio. Mas o recuo seguido de admiss\u00e3o, num terreno t\u00e3o delicado, dificilmente escapa ao ju\u00edzo do eleitor.<\/p>\n\n\n\n<p>O esclarecimento \u00e9 obrigat\u00f3rio, porque as situa\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe de se equivaler, e igual\u00e1-las seria incorrer no mesmo simplismo que se pretende combater. Wagner \u00e9 investigado formalmente, sob suspeita de vantagens indevidas e de atua\u00e7\u00e3o parlamentar favor\u00e1vel \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, o que o coloca diante de um procedimento de natureza penal, ainda que n\u00e3o seja r\u00e9u nem tenha sido denunciado, aplicando-se-lhe por inteiro a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia. ACM Neto diz ter mantido com o banco rela\u00e7\u00e3o privada, de car\u00e1ter estritamente contratual. Os planos jur\u00eddicos s\u00e3o diversos e assim precisam ser tratados.<\/p>\n\n\n\n<p>O impasse, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 no direito, e sim na pol\u00edtica. \u00c9 nesse terreno que a acusa\u00e7\u00e3o moral encontra o seu limite.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem deseja fazer do Banco Master um patrim\u00f4nio exclusivo do advers\u00e1rio esbarra numa dificuldade ret\u00f3rica das mais simples: ter\u00e1 de explicar por que a mesma institui\u00e7\u00e3o mantinha contratos milion\u00e1rios com a principal lideran\u00e7a do seu pr\u00f3prio lado. Assim que percebe que o banco falava, ao mesmo tempo, com situa\u00e7\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o, com a esquerda e a direita, com ex-presidentes e pr\u00e9-candidatos, o eleitor troca de pergunta. J\u00e1 n\u00e3o indaga quem recebeu, mas o que aquele grupo econ\u00f4mico pretendia comprar ao se avizinhar, a um s\u00f3 tempo, de lideran\u00e7as t\u00e3o diferentes entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed reside, quem sabe, a revela\u00e7\u00e3o mais importante do epis\u00f3dio. Antes de um caso local, ele escancara um m\u00e9todo: a habilidade de certos agentes econ\u00f4micos de manter conversa paralela com todos os v\u00e9rtices do poder, sem se deter nas fronteiras ideol\u00f3gicas que estruturam o debate. Nada disso significa dizer que todos os contratados praticaram il\u00edcitos, pois a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 benef\u00edcio que se distribua a conta-gotas. Significa apenas admitir que a influ\u00eancia procurada era abrangente e sist\u00eamica, arquitetada para n\u00e3o depender do resultado de elei\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o tem efeito eleitoral quase imediato, porque estreita o espa\u00e7o dos discursos de superioridade moral. Numa Bahia em que a polariza\u00e7\u00e3o entre PT e Uni\u00e3o Brasil ordena a vida pol\u00edtica h\u00e1 anos, o Banco Master tirou dos dois campos a chance de subir sozinho ao pedestal da virtude.<\/p>\n\n\n\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 explorando o desgaste de Jaques Wagner, e \u00e9 natural que o fa\u00e7a, pois a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria e o interesse p\u00fablico, leg\u00edtimo. O governo, na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, lembrar\u00e1 que a maior lideran\u00e7a advers\u00e1ria, al\u00e9m dos contratos milion\u00e1rios, esteve na resid\u00eancia do banqueiro em Trancoso. Forma-se um estranho equil\u00edbrio de constrangimentos: no lugar do esc\u00e2ndalo que decidiria a elei\u00e7\u00e3o, um caso que desarma boa parte da muni\u00e7\u00e3o moral dos dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esteja a\u00ed a heran\u00e7a pol\u00edtica mais dur\u00e1vel do epis\u00f3dio. N\u00e3o a de trocar o favorito da disputa, mas a de impedir que qualquer candidato conven\u00e7a o eleitor de que a \u00e9tica pertence, com exclusividade, ao seu grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa democracia, a credibilidade n\u00e3o brota da ret\u00f3rica. Nasce da disposi\u00e7\u00e3o de submeter aliados e advers\u00e1rios \u00e0 mesma r\u00e9gua de transpar\u00eancia, legalidade e responsabilidade p\u00fablica. Se essa r\u00e9gua servir para todos, a pol\u00edtica baiana sair\u00e1 mais forte do que entrou. Servindo apenas para o advers\u00e1rio, o Banco Master ter\u00e1 legado somente mais um cap\u00edtulo da velha guerra de narrativas, aquela em que a virtude n\u00e3o passa de discurso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"962\" height=\"577\" src=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-18726\" srcset=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.png 962w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-300x180.png 300w, https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-768x461.png 768w\" sizes=\"(max-width: 962px) 100vw, 962px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Toda elei\u00e7\u00e3o brasileira recorre a um enredo c\u00f4modo, que raramente se questiona: a pol\u00edtica repartida entre os probos e os suspeitos, entre os que servem <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18725\" title=\"O Banco Master e o fim do monop\u00f3lio da virtude\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":18726,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18725"}],"collection":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18725"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18727,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18725\/revisions\/18727"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/18726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}