{"id":18588,"date":"2026-06-10T14:13:08","date_gmt":"2026-06-10T17:13:08","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18588"},"modified":"2026-06-10T14:13:09","modified_gmt":"2026-06-10T17:13:09","slug":"quando-a-vida-fala-mais-alto-que-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18588","title":{"rendered":"Quando a vida fala mais alto que o poder"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 um fen\u00f4meno que se naturalizou na vida p\u00fablica brasileira: o advers\u00e1rio passou a ser tratado como inimigo. A disputa que deveria girar em torno de projetos e de prioridades de gest\u00e3o virou guerra de identidades, em que qualquer gesto de civilidade \u00e9 lido como fraqueza, quando n\u00e3o como trai\u00e7\u00e3o. Foi nesse ambiente que a solidariedade do governador Jer\u00f4nimo Rodrigues a ACM Neto, depois do susto vivido na aeronave do ex-prefeito, ganhou repercuss\u00e3o muito maior do que a de uma simples nota.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que uma cortesia de ocasi\u00e3o, foi um recado endere\u00e7ado ao advers\u00e1rio e ao pr\u00f3prio tempo em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto as redes sociais vivem do conflito e da radicaliza\u00e7\u00e3o, o governador da Bahia foi na dire\u00e7\u00e3o oposta. Ao saber do incidente, n\u00e3o perguntou pela filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria de quem estava a bordo, n\u00e3o olhou pesquisa nem mediu ganho eleitoral. Reagiu como reage quem entende que a vida vale mais do que qualquer disputa pelo poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o foi direta. Disse que, em horas assim, as diferen\u00e7as pol\u00edticas ficam para depois, porque o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pessoa. Agradeceu por todos estarem bem e lembrou, com a experi\u00eancia de quem roda o Estado o tempo inteiro, que a rotina de viagens exp\u00f5e as lideran\u00e7as a riscos que n\u00e3o escolhem partido.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio poderia ter parado a\u00ed, mas cresceu quando ACM Neto veio a p\u00fablico agradecer o gesto. Em poucos minutos, a Bahia viu uma cena rara na pol\u00edtica de hoje: dois advers\u00e1rios se reconhecendo, antes de tudo, como seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale registrar a li\u00e7\u00e3o. Governar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 administrar obras, assinar decretos e ganhar elei\u00e7\u00e3o. Governar \u00e9 tamb\u00e9m saber onde a pol\u00edtica precisa parar. Existe um terreno em que o poder n\u00e3o manda: ele n\u00e3o manda na vida em risco, na doen\u00e7a, na dor, no medo de quem percebe que algo pode dar errado a milhares de metros de altura. Esse terreno pertence \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, e mandato nenhum o alcan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A repercuss\u00e3o veio da\u00ed. O gesto recolocou algo que anda esquecido: democracia n\u00e3o pede que advers\u00e1rios se odeiem. Funciona melhor, ali\u00e1s, quando a briga cabe dentro dos limites da civilidade. Divergir faz parte do jogo. Desumanizar o outro, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo e ACM seguir\u00e3o em lados opostos na corrida pelo Governo da Bahia. V\u00e3o continuar discordando sobre gest\u00e3o, prioridades e rumos, e est\u00e1 certo que seja assim. A democracia precisa da diverg\u00eancia. O que ela n\u00e3o suporta \u00e9 ver a diverg\u00eancia se transformar em nega\u00e7\u00e3o da dignidade do advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o pa\u00eds acompanhou casos seguidos em que a l\u00f3gica da guerra pol\u00edtica passou por cima de limites \u00e9ticos b\u00e1sicos. Gente julgada n\u00e3o pelo que vive, mas pelo lado em que est\u00e1; trag\u00e9dia pessoal convertida em arma de combate. Jer\u00f4nimo n\u00e3o foi por esse caminho. Ao estender a m\u00e3o ao principal rival, mostrou que entende uma coisa simples: o poder n\u00e3o suspende a condi\u00e7\u00e3o humana de quem o disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por alguns instantes, a pol\u00edtica parou de falar de elei\u00e7\u00e3o, de pesquisa e de alian\u00e7as, e voltou a falar de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Num tempo em que a agressividade costuma produzir mais aplausos do que a serenidade, o governador da Bahia ofereceu um lembrete que merece ser preservado: a grandeza de um l\u00edder n\u00e3o se revela apenas na capacidade de enfrentar advers\u00e1rios, mas tamb\u00e9m na capacidade de reconhecer a humanidade que existe neles.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa democracia madura, a disputa pelo poder pode ser intensa, firme e at\u00e9 dura. O respeito \u00e0 vida, por\u00e9m, deve permanecer absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi essa a mensagem transmitida por Jer\u00f4nimo Rodrigues. E talvez seja exatamente por isso que ela tenha repercutido tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, antes de sermos governo ou oposi\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o ou advers\u00e1rios, somos todos vulner\u00e1veis \u00e0s mesmas conting\u00eancias da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica divide posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o humana nos re\u00fane.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>H\u00e1 um fen\u00f4meno que se naturalizou na vida p\u00fablica brasileira: o advers\u00e1rio passou a ser tratado como inimigo. 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