{"id":18585,"date":"2026-06-10T14:12:14","date_gmt":"2026-06-10T17:12:14","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18585"},"modified":"2026-06-10T14:12:15","modified_gmt":"2026-06-10T17:12:15","slug":"a-morte-da-terceira-via","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=18585","title":{"rendered":"A morte da terceira via"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A&nbsp;elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 entre Lula e Fl\u00e1vio Bolsonaro. Est\u00e1 entre o centro e a irrelev\u00e2ncia. A nova Quaest n\u00e3o revelou apenas quem lidera a corrida presidencial. Revelou quem saiu dela. Enquanto os dois polos dividem entre si quase todo o eleitorado, o centro pol\u00edtico brasileiro assiste, mais uma vez, \u00e0 disputa acontecer sem ele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Jerbson Moraes<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um v\u00edcio antigo na leitura das pesquisas eleitorais brasileiras: concentrar a aten\u00e7\u00e3o em quem sobe e tratar como ru\u00eddo quem desaparece.<\/p>\n\n\n\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o do novo levantamento Quaest refor\u00e7ou esse h\u00e1bito. O pa\u00eds recebeu os n\u00fameros como mais um cap\u00edtulo previs\u00edvel do duelo entre Lula e Fl\u00e1vio Bolsonaro \u2014 o presidente com 39% das inten\u00e7\u00f5es de voto e o senador com 29% \u2014 e a manchete cumpriu seu papel. Mas a informa\u00e7\u00e3o mais relevante da pesquisa n\u00e3o est\u00e1 na dianteira de nenhum dos dois. Est\u00e1 no espa\u00e7o esvaziado que se abriu atr\u00e1s deles, onde durante anos se imaginou caber uma terceira via.<\/p>\n\n\n\n<p>O dado decisivo, portanto, n\u00e3o \u00e9 a vantagem de Lula. \u00c9 a constata\u00e7\u00e3o de que, somados, os dois primeiros colocados concentram praticamente sete em cada dez eleitores, enquanto o restante se distribui em fra\u00e7\u00f5es incapazes de alterar o rumo da disputa. Governadores com proje\u00e7\u00e3o nacional, ex-presidenci\u00e1veis, lideran\u00e7as empresariais, nomes oriundos da magistratura e representantes de movimentos pol\u00edticos aparecem reduzidos a percentuais que n\u00e3o mudam cen\u00e1rio algum. Mais do que uma fotografia da lideran\u00e7a, o levantamento documenta o encolhimento do campo que se propunha a ser a alternativa aos dois extremos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a maior parte da \u00faltima d\u00e9cada, boa parte da an\u00e1lise pol\u00edtica apostou que o eleitorado, cansado do confronto, procuraria uma sa\u00edda pelo meio. Falou-se em terceira via, centro democr\u00e1tico, candidatura moderada, frente ampla. O discurso teve audi\u00eancia, mas nunca se converteu em voto. Em 2018 e novamente em 2022, as candidaturas que se apresentavam como ponte entre os dois lados naufragaram antes do segundo turno. Nada na Quaest sugere que 2026 venha a corrigir essa trajet\u00f3ria. Oferecido o equil\u00edbrio, o eleitor preferiu o pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa talvez seja a chave para compreender o pa\u00eds que a pesquisa revela: um pa\u00eds menos interessado em programas de governo do que em identidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Lula segue competitivo apesar do desgaste natural de quem governa porque representa mais do que a pr\u00f3pria gest\u00e3o. Carrega um campo pol\u00edtico, uma mem\u00f3ria coletiva e um projeto de poder que sobrevivem ao desempenho administrativo do momento. Fl\u00e1vio Bolsonaro, por sua vez, converteu o sobrenome em patrim\u00f4nio eleitoral e herdou uma base que enxerga nele a continuidade de uma causa.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa deixou de medir curr\u00edculos para medir lealdades. E lealdades, ao contr\u00e1rio de propostas, n\u00e3o se negociam no varejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa que o quadro esteja im\u00f3vel. Nos meses anteriores, Fl\u00e1vio havia conseguido o que parecia improv\u00e1vel: aproximar-se de Lula a ponto de produzir empates t\u00e9cnicos em diversos levantamentos nacionais, alimentando na oposi\u00e7\u00e3o a expectativa de uma virada. A Quaest mais recente reabre a dist\u00e2ncia e devolve ao presidente uma vantagem mais confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A oscila\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o altera a natureza do jogo. O que se consolidou foi a exist\u00eancia de dois eleitorados est\u00e1veis \u2014 um lulista e outro bolsonarista \u2014 em torno dos quais todo o restante disputa as sobras.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma elei\u00e7\u00e3o se organiza em dois grandes blocos, os candidatos passam a ser avaliados menos pelo que fazem e mais pelo que simbolizam. E isso produz consequ\u00eancias concretas. Epis\u00f3dios que, em um ambiente menos polarizado, abalariam campanhas inteiras acabam gerando efeitos limitados, porque cada eleitorado interpreta os fatos pela lente que escolheu previamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o funciona como blindagem. Protege os l\u00edderes de suas pr\u00f3prias crises e reduz o impacto das not\u00edcias capazes de deslocar votos indecisos, que, justamente, tornam-se cada vez mais raros.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno tampouco se encerra no plano federal. Toda elei\u00e7\u00e3o presidencial fortemente polarizada irradia efeitos sobre os estados, e a Bahia oferece um exemplo claro. A manuten\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a de Lula refor\u00e7a, quase por cont\u00e1gio, o campo pol\u00edtico alinhado ao governador Jer\u00f4nimo Rodrigues. N\u00e3o porque o eleitor confunda as disputas, mas porque as narrativas passam a caminhar juntas e a mar\u00e9 que favorece o topo da chapa costuma sustentar quem vem logo abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o baiana, espelhando o impasse nacional, encontra limites semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9, no fundo, o desafio que a direita ter\u00e1 de resolver. Se Fl\u00e1vio Bolsonaro for realmente o nome definitivo do campo conservador, precisar\u00e1 demonstrar aquilo que nenhuma pesquisa lhe atribuiu at\u00e9 agora: capacidade de crescer para al\u00e9m do bolsonarismo tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>Elei\u00e7\u00f5es presidenciais n\u00e3o s\u00e3o vencidas apenas pela mobiliza\u00e7\u00e3o dos j\u00e1 convertidos. S\u00e3o vencidas pela conquista do eleitor independente, daquele que ainda n\u00e3o fechou quest\u00e3o com nenhum dos polos. \u00c9 nesse terreno inst\u00e1vel, mais do que nas extremidades j\u00e1 ocupadas, que 2026 ser\u00e1 decidido.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, saber quem vencer\u00e1 a elei\u00e7\u00e3o importa menos do que compreender outra coisa, de alcance mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que o maior pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina, d\u00e9cadas depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o, continua retornando aos mesmos dois campos sempre que chega a uma encruzilhada nacional?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a verdadeira not\u00edcia da Quaest n\u00e3o seja a lideran\u00e7a de Lula nem a competitividade de Fl\u00e1vio Bolsonaro. Talvez seja a evid\u00eancia de que o Brasil continua procurando respostas nas margens opostas do debate p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao faz\u00ea-lo, condena o centro pol\u00edtico a uma condi\u00e7\u00e3o paradoxal. Os analistas o desejam a cada ciclo, anunciam sua chegada, depositam nele a esperan\u00e7a da modera\u00e7\u00e3o institucional. O eleitor, por\u00e9m, quando entra na cabine de vota\u00e7\u00e3o, segue fazendo outra escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>O retrato mais duradouro que a pesquisa nos oferece n\u00e3o \u00e9 o de uma elei\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, mas o de um pa\u00eds que aprendeu a conviver com a polariza\u00e7\u00e3o como quem aceita uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica \u2014 e que continua recusando, urna ap\u00f3s urna, a modera\u00e7\u00e3o que diz procurar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A&nbsp;elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 entre Lula e Fl\u00e1vio Bolsonaro. Est\u00e1 entre o centro e a irrelev\u00e2ncia. 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