{"id":17998,"date":"2026-02-20T18:58:30","date_gmt":"2026-02-20T21:58:30","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=17998"},"modified":"2026-02-20T18:58:31","modified_gmt":"2026-02-20T21:58:31","slug":"nao-e-se-e-quando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=17998","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 \u201cse\u201d. \u00c9 quando."},"content":{"rendered":"\n<p>Na pol\u00edtica, a trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidente de percurso. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o do terreno.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pol\u00edtica, voc\u00ea vai ser tra\u00eddo. N\u00e3o \u00e9 advert\u00eancia ret\u00f3rica nem frase de efeito para abrir discurso. \u00c9 constata\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 atravessou mandatos, elei\u00e7\u00f5es, bastidores e palanques o suficiente para distinguir o que \u00e9 companheirismo do que \u00e9 conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Guarde isso. Porque no dia em que acontecer \u2014 e acontecer\u00e1 \u2014 voc\u00ea vai precisar mais de lucidez do que de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa o quanto voc\u00ea construiu. N\u00e3o importa quantas portas abriu. N\u00e3o importa quantas vezes estendeu a m\u00e3o quando ningu\u00e9m mais estendia. Em algum momento, algu\u00e9m vai sentar diante de uma planilha invisivel de custos e benef\u00edcios e concluir, com a frieza de quem analisa um balan\u00e7o, que voc\u00ea se tornou dispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem est\u00e1 come\u00e7ando chama isso de pessimismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem j\u00e1 atravessou elei\u00e7\u00f5es chama de realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica tem essa capacidade singular de fundir afetos e interesses sob o mesmo calor. Aproxima pessoas com a for\u00e7a de um projeto comum, de um advers\u00e1rio maior, de uma elei\u00e7\u00e3o que parece a \u00faltima trincheira. H\u00e1 discursos inflamados, abra\u00e7os que parecem sinceros, juras de lealdade pronunciadas com a solenidade de quem acredita no que diz \u2014 ou pelo menos no que a ocasi\u00e3o exige que se diga.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a pol\u00edtica, em sua ess\u00eancia, \u00e9 movimento. O que une hoje pode separar amanh\u00e3. E quase sempre separa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 \u2022 \u2022<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje voc\u00ea \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanh\u00e3, voc\u00ea \u00e9 negoci\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O aliado que jurava lealdade descobre uma conveni\u00eancia. O assessor fiel descobre uma oportunidade. O padrinho pol\u00edtico, aquele que lhe abriu as primeiras portas, passa a calcular o custo de mant\u00ea-las abertas. E voc\u00ea descobre, com a precis\u00e3o dolorosa de quem leva um tiro pelas costas, que o poder n\u00e3o cultiva mem\u00f3ria afetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A trai\u00e7\u00e3o quase nunca vem com estardalha\u00e7o. Ela chega disfar\u00e7ada de sil\u00eancio \u2014 e \u00e9 no sil\u00eancio que se aprende a ouvir o que a pol\u00edtica realmente diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Vem na aus\u00eancia estrat\u00e9gica. No voto inesperado. Na foto ao lado de quem, at\u00e9 ontem, era advers\u00e1rio. No telefonema que n\u00e3o retorna. \u00c9 nesses detalhes \u2014 nesses pequenos gestos que pedem olhos treinados \u2014 que se revela a verdadeira natureza do poder: um campo onde os afetos s\u00e3o transit\u00f3rios e as alian\u00e7as, condicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00f3i? D\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 lugar para fragilidade prolongada. H\u00e1 um tempo para sangrar e um tempo para cicatrizar. E, entre um e outro, h\u00e1 o tempo \u2014 que \u00e9 quase sempre o mais curto \u2014 de decidir se voc\u00ea vai se recolher ou se vai continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea engole.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajusta o palet\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobe no palanque.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha para frente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque esqueceu. Mas porque entendeu que sobreviver, na arena p\u00fablica, exige uma esp\u00e9cie de frieza estrat\u00e9gica que nada tem a ver com indiferen\u00e7a \u2014 e tudo a ver com preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 \u2022 \u2022<\/p>\n\n\n\n<p>Na pol\u00edtica, rancor \u00e9 um erro t\u00e1tico. O ressentido perde tempo. E tempo, no poder, \u00e9 o \u00fanico capital que n\u00e3o se recupera.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem vive de m\u00e1goa perde articula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem perde articula\u00e7\u00e3o perde espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem perde espa\u00e7o vira espectador da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, cria-se uma esp\u00e9cie de couro emocional. N\u00e3o \u00e9 frieza; \u00e9 defesa. N\u00e3o \u00e9 cinismo; \u00e9 maturidade. Aprende-se a separar o projeto das pessoas, o objetivo das circunst\u00e2ncias, o essencial do contingente.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa normalizar a deslealdade nem transform\u00e1-la em virtude. Significa compreender o terreno em que se pisa \u2014 e pisar com olhos abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 feita apenas de ideais nobres. \u00c9 feita de ambi\u00e7\u00e3o, medo, c\u00e1lculo e vaidade \u2014 ingredientes humanos, demasiado humanos, que nenhum discurso de posse consegue disfar\u00e7ar por muito tempo. Quem entra nesse jogo acreditando exclusivamente na pureza das inten\u00e7\u00f5es sai ferido demais para continuar. E quem ignora a natureza do tabuleiro caminha desarmado por um campo que n\u00e3o perdoa ingenuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 \u2022 \u2022<\/p>\n\n\n\n<p>A maturidade pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 em evitar a trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 em atravess\u00e1-la sem implodir.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2026 \u2014 como em qualquer outro ano que carregue o peso de uma elei\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o vencer\u00e1 quem nunca foi abandonado. Vencer\u00e1 quem suportou o abandono e teve a lucidez de reorganizar o tabuleiro enquanto o advers\u00e1rio ainda celebrava a jogada.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 sobre perman\u00eancia ao seu lado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sobre perman\u00eancia de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E ficar de p\u00e9 depois da ruptura \u00e9 o que separa os amadores dos que de fato compreendem a gram\u00e1tica do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a trai\u00e7\u00e3o revela menos sobre voc\u00ea do que sobre quem parte. Mas a forma como voc\u00ea reage \u2014 o sil\u00eancio que escolhe, a postura que mant\u00e9m, o passo seguinte que d\u00e1 \u2014 revela exatamente quem voc\u00ea \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E seguir em frente, \u00e0s vezes, \u00e9 o gesto mais silencioso \u2014 e mais poderoso \u2014 que um pol\u00edtico pode fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Jerbson Moraes<\/p>\n\n\n\n<p>Advogado \u2022 OAB\/BA 16.599<\/p>\n\n\n\n<p>Ex-Presidente da C\u00e2mara Municipal de Ilh\u00e9us<\/p>\n\n\n\n<p>Colunista \u2014 Justi\u00e7a &amp; Direito <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Na pol\u00edtica, a trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidente de percurso. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o do terreno. Na pol\u00edtica, voc\u00ea vai ser tra\u00eddo. 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