{"id":17976,"date":"2026-02-18T21:55:05","date_gmt":"2026-02-19T00:55:05","guid":{"rendered":"http:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=17976"},"modified":"2026-02-18T21:55:06","modified_gmt":"2026-02-19T00:55:06","slug":"reeleicao-no-horizonte-os-fatores-estruturais-que-favorecem-jeronimo-rodrigues-na-bahia-e-os-riscos-que-a-analise-convencional-subestima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=17976","title":{"rendered":"Reelei\u00e7\u00e3o no horizonte: Os fatores estruturais que favorecem Jer\u00f4nimo Rodrigues na Bahia \u2014 e os riscos que a an\u00e1lise convencional subestima"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando disputou o governo da Bahia em 2022, Jer\u00f4nimo Rodrigues era uma aposta improv\u00e1vel. Ex-secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o sem proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica pr\u00f3pria, come\u00e7ou a campanha como desconhecido da maioria dos eleitores, protagonizou uma virada ainda no primeiro turno e consolidou a vit\u00f3ria no segundo, contra ACM Neto. Quatro anos depois, o cen\u00e1rio \u00e9 estruturalmente diverso. O governador entra no ciclo pr\u00e9-eleitoral com as credenciais que lhe faltavam \u2014 visibilidade, base pol\u00edtica e controle da agenda \u2014, al\u00e9m de fatores institucionais que, historicamente, favorecem quem ocupa o Pal\u00e1cio de Ondina.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que se coloca n\u00e3o \u00e9 se Jer\u00f4nimo \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 em que medida essa vantagem estrutural pode ser convertida em vit\u00f3ria efetiva diante de um advers\u00e1rio que, pelas pesquisas iniciais, continua competitivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso da incumb\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia pol\u00edtica \u00e9 consistente ao demonstrar que a condi\u00e7\u00e3o de incumbente confere vantagem substancial em disputas majorit\u00e1rias. No Brasil, governadores que concorreram \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o desde 1998 obtiveram taxa de sucesso superior a 65%, segundo levantamentos sistem\u00e1ticos de institui\u00e7\u00f5es como o CEPESP-FGV. O fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 exclusivamente brasileiro: a vantagem do incumbente \u00e9 documentada em democracias de todas as latitudes, da \u00cdndia aos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>As raz\u00f5es s\u00e3o tanto comunicacionais quanto operacionais. Quem governa controla a agenda p\u00fablica, realiza entregas institucionais com visibilidade program\u00e1vel e mant\u00e9m presen\u00e7a permanente nos munic\u00edpios por meio do aparato administrativo. Diferentemente do candidato desafiante, que precisa construir narrativa a partir do zero, o incumbente parte de um patamar de reconhecimento consolidado.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Jer\u00f4nimo, a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 not\u00e1vel. Em 2022, o eleitor baiano o desconhecia; hoje, para o bem ou para o mal, sabe quem \u00e9 o governador. A disputa deixa de ser sobre identidade e passa a ser sobre avalia\u00e7\u00e3o de desempenho \u2014 terreno mais est\u00e1vel e, para o situacionismo, geralmente mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A capilaridade municipal como ativo estrat\u00e9gico<\/p>\n\n\n\n<p>A articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no interior sempre foi o nervo das elei\u00e7\u00f5es baianas. O estado possui 417 munic\u00edpios, a maioria de pequeno porte, onde a influ\u00eancia de lideran\u00e7as locais ainda \u00e9 determinante para a forma\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias eleitorais. O apoio declarado de mais de 350 prefeitos ao governo estadual n\u00e3o \u00e9 mera soma aritm\u00e9tica: representa capilaridade territorial, estrutura de mobiliza\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a institucional organizada em regi\u00f5es onde partidos de oposi\u00e7\u00e3o historicamente encontram dificuldade de penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso, contudo, evitar a automatiza\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio. Prefeitos n\u00e3o transferem votos mecanicamente, sobretudo em disputas estaduais, nas quais o eleitor tende a ser mais aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o a orienta\u00e7\u00f5es locais. O que o apoio municipal oferece de concreto \u00e9 infraestrutura log\u00edstica e presencial nos dias de campanha, al\u00e9m de uma rede de comunica\u00e7\u00e3o informal que, em cidades pequenas, ainda funciona como ve\u00edculo pol\u00edtico eficiente. Em elei\u00e7\u00f5es apertadas, essa diferen\u00e7a pode ser decisiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A longevidade do ciclo petista na Bahia<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo pol\u00edtico liderado pelo PT governa a Bahia desde 2007, quando Jaques Wagner assumiu o Executivo estadual e interrompeu duas d\u00e9cadas de carlismo. A sucess\u00e3o Wagner\u2013Rui Costa\u2013Jer\u00f4nimo configurou uma linha de continuidade administrativa que j\u00e1 atravessa quase duas d\u00e9cadas. Ciclos hegem\u00f4nicos dessa dura\u00e7\u00e3o s\u00e3o raros na pol\u00edtica estadual brasileira \u2014 e s\u00f3 se sustentam na aus\u00eancia de rupturas institucionais graves, colapso econ\u00f4mico ou eros\u00e3o interna do grupo dirigente.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, nenhum desses elementos disruptivos se materializou de forma irrevers\u00edvel. A base aliada permanece coesa em suas linhas gerais, e a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o logrou construir uma narrativa de esgotamento do modelo que ressoe com amplitude suficiente no eleitorado. Para o governo, a estabilidade pode ser apresentada como argumento de campanha: continuidade de programas, previsibilidade administrativa e manuten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, um risco impl\u00edcito nessa longevidade: o desgaste natural que acompanha qualquer ciclo prolongado de poder. O eleitor pode associar perman\u00eancia a acomoda\u00e7\u00e3o, e a oposi\u00e7\u00e3o tende a explorar esse veio com a ret\u00f3rica da renova\u00e7\u00e3o. At\u00e9 aqui, o discurso renovador n\u00e3o encontrou eco majoritari\u00e1rio na Bahia, mas seria imprudente descart\u00e1-lo como vari\u00e1vel do cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Empate t\u00e9cnico na largada: o que os n\u00fameros realmente dizem<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras pesquisas do ciclo eleitoral apontam empate t\u00e9cnico entre Jer\u00f4nimo e ACM Neto. A leitura apressada tende a interpretar o dado como sinal de fragilidade do governo; a an\u00e1lise mais cuidadosa sugere o oposto. Iniciar a disputa tecnicamente empatado com o principal advers\u00e1rio representa, para o incumbente, aus\u00eancia de desvantagem estrutural \u2014 condi\u00e7\u00e3o significativamente mais favor\u00e1vel do que a vivida em 2022, quando Jer\u00f4nimo partiu de patamares muito inferiores nas sondagens.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura eleitoral mostra que incumbentes com avalia\u00e7\u00e3o de governo est\u00e1vel ou positiva tendem a crescer ao longo da campanha, beneficiados pela exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica do cargo e pela possibilidade de intensificar entregas nos meses que antecedem o pleito. Se essa tend\u00eancia se confirmar, o empate atual pode ser lido n\u00e3o como teto, mas como piso da performance governista.<\/p>\n\n\n\n<p>A ressalva necess\u00e1ria \u00e9 que ACM Neto n\u00e3o \u00e9 um advers\u00e1rio convencional. Trata-se de um pol\u00edtico com alto \u00edndice de conhecimento, experi\u00eancia em disputas majorit\u00e1rias e capacidade comprovada de constru\u00e7\u00e3o de imagem. O empate t\u00e9cnico, nesse contexto, indica que a elei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 disputada de forma acirrada, exigindo do governo mais do que a mera vantagem posicional.<\/p>\n\n\n\n<p>O fator federal: alinhamento como trunfo e como risco<\/p>\n\n\n\n<p>O alinhamento pol\u00edtico entre o governo estadual e o Planalto \u00e9 historicamente um ativo eleitoral relevante. Parcerias institucionais, investimentos federais direcionados e obras estruturantes comp\u00f5em uma narrativa de coopera\u00e7\u00e3o federativa que pode ser traduzida em benef\u00edcios tang\u00edveis para o eleitor. Na Bahia, onde a presen\u00e7a da Uni\u00e3o em programas sociais e de infraestrutura \u00e9 particularmente expressiva, esse fator tende a pesar a favor do governador alinhado.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco, evidentemente, \u00e9 que o alinhamento funcione como faca de dois gumes. Se a avalia\u00e7\u00e3o do governo federal se deteriorar de forma significativa at\u00e9 outubro de 2026, Jer\u00f4nimo pode ser arrastado por uma rejei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 sua. ACM Neto certamente tentar\u00e1 associar o governador \u00e0s eventuais fragilidades do governo Lula, assim como o petismo buscar\u00e1 vincular Neto \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o federal. A elei\u00e7\u00e3o baiana, como de costume, n\u00e3o ser\u00e1 apenas estadual.<\/p>\n\n\n\n<p>O precedente de 2022: resili\u00eancia como capital pol\u00edtico<\/p>\n\n\n\n<p>A virada protagonizada por Jer\u00f4nimo na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser subestimada como ativo psicol\u00f3gico e estrat\u00e9gico. Vencer partindo de baixo, contra um advers\u00e1rio favorito e sob cr\u00edticas intensas, conferiu ao governador um capital de resili\u00eancia que transcende o dado eleitoral bruto. Para a base governista, o precedente reduz o impacto de eventuais oscila\u00e7\u00f5es negativas nas pesquisas iniciais: j\u00e1 se esteve atr\u00e1s e, ainda assim, venceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fator, entretanto, n\u00e3o pode ser tratado como garantia de replica\u00e7\u00e3o. Viradas eleitorais dependem de condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que n\u00e3o se repetem necessariamente: a exist\u00eancia de um eleitorado indeciso dispon\u00edvel, erros estrat\u00e9gicos do advers\u00e1rio, e a din\u00e2mica pr\u00f3pria do segundo turno, que tende a polarizar e beneficiar o candidato com maior capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o. O que 2022 demonstra com seguran\u00e7a \u00e9 que Jer\u00f4nimo tem capacidade de crescimento em campanha \u2014 e isso, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 um dado relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 \u2022 \u2022<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00edntese: vantagem real, mas n\u00e3o inexor\u00e1vel<\/p>\n\n\n\n<p>O conjunto dos fatores analisados coloca Jer\u00f4nimo Rodrigues em posi\u00e7\u00e3o objetivamente mais favor\u00e1vel do que na elei\u00e7\u00e3o anterior. Est\u00e1 no exerc\u00edcio do cargo, \u00e9 amplamente conhecido, possui base municipal robusta, conta com continuidade pol\u00edtica consolidada e parte tecnicamente empatado com o principal advers\u00e1rio. S\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que, tomadas em conjunto, configurariam favoritismo em qualquer manual de an\u00e1lise eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise seria, contudo, incompleta se ignorasse as vari\u00e1veis de risco: o desgaste natural de um ciclo pol\u00edtico de quase duas d\u00e9cadas, a vulnerabilidade ao humor nacional caso o governo federal perca popularidade, e a presen\u00e7a de um advers\u00e1rio experiente que, ao contr\u00e1rio de 2022, j\u00e1 conhece as armadilhas do segundo turno. Elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o equa\u00e7\u00f5es lineares, e a pol\u00edtica baiana, em especial, tem hist\u00f3rico de desfechos que desafiam prognosticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se pode afirmar com razo\u00e1vel seguran\u00e7a \u00e9 que Jer\u00f4nimo disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es estruturais favor\u00e1veis \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Convert\u00ea-las em vit\u00f3ria depender\u00e1, como sempre, da capacidade de transformar vantagem posicional em campanha efetiva \u2014 e de evitar os erros que, em pol\u00edtica, costumam custar mais caro do que acertos rendem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Quando disputou o governo da Bahia em 2022, Jer\u00f4nimo Rodrigues era uma aposta improv\u00e1vel. Ex-secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o sem proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica pr\u00f3pria, come\u00e7ou a campanha como <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/?p=17976\" title=\"Reelei\u00e7\u00e3o no horizonte: Os fatores estruturais que favorecem Jer\u00f4nimo Rodrigues na Bahia \u2014 e os riscos que a an\u00e1lise convencional subestima\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":6365,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/acmje.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17976"}],"collection":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17976"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17977,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17976\/revisions\/17977"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/correiodoestadobahia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}